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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Militares desembarcaram, mas Bolsonaro não desiste dos delírios golpistas

Comandos militares entregam os cargos; Bolsonaro dobra a aposta no caos -  Marcelo Camargo/Agência Brasil
Comandos militares entregam os cargos; Bolsonaro dobra a aposta no caos Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

30/03/2021 17h36

Com a inédita renúncia coletiva dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, em resposta à demissão do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, por se recusar a envolver os militares nos delírios golpistas do presidente, como a coluna antecipou ontem, as Forças Armadas desembarcaram oficialmente do governo Bolsonaro nesta terça-feira e reafirmaram seus compromissos com a ordem democrática.

Não esperem um novo golpe dos ou com os militares. O risco que corremos agora é de um autogolpe do capitão, mas isso teria tudo para não dar certo

Acabou a história de Bolsonaro chamar o "meu Exército" para ameaçar a população civil na guerra de destruição que trava contra as instituições, o país e a vida dos brasileiros.

Mas o capitão enfurecido ainda não desistiu dos seus planos suicidas de levar o Brasil a uma guerra civil para ressurgir mais adiante como o salvador da pátria, montado num cavalo baio de alguma Polícia Militar, espada em punho, autoproclamando-se D. Bolsonaro 1º.

Ele só pensa nisso desde que foi eleito, e não admite ser contrariado. Até já ensaiou a cena no ano passado durante as manifestações antidemocráticas em Brasília.

Para isso, após o desembarque das Forças Armadas, mobilizou seu pau-mandado major Vitor Hugo, líder do PSL na Câmara, para apresentar ao colégio de líderes na Câmara em regime de urgência o projeto de criação de um tal de Estado de Mobilização Nacional (outro nome dado ao velho Estado de Sítio), a pretexto de lhe dar plenos poderes para combater a pandemia do coronavírus.

Sem o apoio das Forças Armadas, o que Bolsonaro procura com essa nova iniciativa golpista é assumir o comando das Polícias Militares estaduais, assim como suas respectivas milícias, colocando-as sob o controle do Ministério da Justiça, e não mais dos governadores.

É por isso que ele está atrasando até onde pode o pagamento do mísero auxílio emergencial para os famintos e promovendo a vacinação a conta-gotas da população, esperando acontecer o que vem anunciando nos últimos dias: "O caos vem aí".

Este é o grande perigo, pois o caos é ele. Bolsonaro sonha com saques, depredações, ônibus queimados, qualquer coisa para colocar os seus meganhas nas ruas.

Este é o grande perigo, pois o caos é ele. Quanto mais acuado, mais imprevisível e incontrolável fica o capitão, como mostrou na louca dança das cadeiras da segunda-feira, quando auto-implodiu o seu governo numa alucinada reforma ministerial de improviso. Por isso, ninguém sabe o que pode acontecer agora.

Bolsonaro sempre viveu da provocação e do confronto, desde os seus tempos de militar insubmisso.

Foi um tenente que ameaçou jogar bombas nos quartéis e na estação de tratamento de águas do Rio de Janeiro e, mais tarde, como deputado federal, ao prestar homenagens a torturadores e milicianos, pregar a volta da ditadura militar e comemorar todo dia 31 de Março o aniversário do golpe. Amanhã é dia, lembrem-se.

Agora, no governo, está fazendo de tudo para desmoralizar as Forças Armadas e seus comandantes, vingando-se das punições e humilhações que sofreu nos seus tempos de caserna.

Graças a ele, o Brasil vive hoje a maior crise militar desde 1977, quando o ditador Ernesto Geisel demitiu com desonra o comandante do Exército, general Sylvio Frota, que queria dar um novo golpe dentro dos golpes de 1964 e 1968, para impedir o processo de "abertura lenta, gradual e segura".

Trabalhava no gabinete dele um jovem oficial chamado Heleno, que é o hoje todo poderoso general Heleninho, comandante em chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) de Bolsonaro.

Ao formar um exército particular de acólitos civis e militares entrincheirados no Palácio do Planalto, nos ministérios e no Congresso, dominado pelo Centrão que agora tem as chaves do cofre, Bolsonaro está só esperando a aposentadoria próxima do ministro Marco Aurélio Mello, anunciada por ele hoje, para nomear mais um jurista do padrão Kassio Nunes e assim assumir o controle do STF, onde o presidente Luiz Fux é seu aliado discreto.

Do outro lado da trincheira, restamos todos nós, que não temos para onde correr nem a quem recorrer.

Vida que segue.

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Veja tasmbém no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=gura_F_B7_8&t=2s

NÃO VAI TER GOLPE | FORÇAS ARMADAS DESEMBARCAM DO PROJETO GOLPISTA DE BOLSONARO | BALAIO DO KOTSCHO

Depois da demissão do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, por se recusar a embarcar no projeto golpista de Bolsonaro, os comandantes do Exército, M...

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL