PUBLICIDADE
Topo

Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro bota fogo no circo, foge debaixo da lona e sai gritando: "Fogo!"

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

13/04/2021 17h13

A imagem descrita no título foi a melhor que consegui encontrar para resumir os últimos desatinos do capitão presidente, ao entrar em choque com o Supremo Tribunal Federal, governadores e prefeitos, por não se conformar com a instalação da CPI do Genocídio.

Só o fato de ter usado o senador Jorge Kajuru, logo quem!, ao divulgar seus planos terroristas para fugir das investigações sobre os crimes em série cometidos durante a pandemia, já mostra como ele está completamente isolado e perdido em seu labirinto, na tentativa desesperada de se segurar no cargo.

Perdido por perdido, Bolsonaro agora se dedica a desmoralizar as instituições, com a nomeação de Kassio Conká para o STF, ao demitir os comandantes militares, sem ter até agora revelado os motivos, eleger tipos invertebrados como Rodrigo Pacheco e Arthur Lira para comandar o Congresso, substituir no Ministério da Saúde o general Pazuello por um civil com a mesma subserviência, manter ministros como Damares, Salles e o pastor Milton Ribeiro, e entregar a PGR e a AGU a dois cupinchas terrivelmente evangélicos.

Está tudo dominado e aparelhado de cima a baixo, no momento mais dramático da pandemia, que já tirou 350 mil vidas e caminha para matar outro tanto, antes que a população esteja vacinada.

Estão faltando vacinas em vários Estados, os remédios para intubação vão acabando, assim como o oxigênio. O Brasil está virando outro país _ e não é uma Venezuela, mas uma grande Manaus.

E o atarantado presidente se diverte, enquanto o resto do país chora seus mortos. Ao ser informado por seus apoiadores que Kassio Conká ficou com a ação impetrada por Kajuru no STF, seguindo seu conselho, para pedir o impeachment de Alexandre de Moraes, seu desafeto, Bolsonaro deu uma sonora gargalhada.

Repete na Presidência da República o mesmo comportamento cafajeste, galhofeiro e irresponsável que teve no baixo clero da Câmara, por quase 30 anos de absoluta inutilidade parlamentar, mas ainda é apoiado por setores das Forças Armadas, que não querem perder as boquinhas em mais de 7 mil cargos civis que ocupam no governo.

Bolsonaro se agarra ao Centrão, que por sua vez se agarra ao Orçamento e estoura o teto fiscal, para garantir suas emendas parlamentares.

Já estamos proibidos de entrar na maioria dos países civilizados e os estrangeiros não querem mais vir para cá, amedrontados com a crise sanitária e o avanço do genocídio, com mais de 3 mil mortes diárias. Ainda hoje, a França prorrogou a proibição da entrada de brasileiros por tempo indeterminado.

A instalação da CPI do Genocídio poderia ser uma sinalização ao mundo de que as instituições estão funcionando, apesar de tudo, mas é grande o esforço para melar as investigações, e deixar tudo como está até acabar a pandemia, em nome de preservar a saúde dos senadores.

Como ninguém sabe quando isso acontecerá, os mortos continuarão sendo empilhados nos cemitérios.

O principal objetivo da CPI era exatamente evitar a mortandade, patrocinada pelo governo com a oferta de remédios que não curam, ao contrário, e a campanha oficial contra o isolamento social e a imunização em massa da população feita a conta-gotas.

A distinta plateia assiste placidamente à lona queimando, digitando freneticamente no celular para pedir socorro, sem saber se corre ou se fica esperando os bombeiros.

Sim, trata-se um filme de horror sem hora para acabar, e os milhões de figurantes somos todos nós.

Vida que segue.

.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL