PUBLICIDADE
Topo

Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Religião, Justiça e milícias: está tudo junto e misturado no bolsonarismo

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

09/05/2021 13h08

""Imaginem, no Supremo Tribunal Federal, as sessões começarem com uma oração por parte desse ministro que será indicado por mim", sugeriu Bolsonaro, na manhã deste domingo, a um grupo de evangélicos no cercadinho do Alvorada, de onde ele costume se comunicar com a nação.

"Amém", responderam em coro os devotos do negacionismo terraplanista.

Sim, dá para imaginar a confusão que vai dar misturar religião com Justiça num estado laico ocupado por militares em cargos civis.

Era só o que faltava: transformar o STF em mais um templo da seita bolsonarista, que mistura balas com orações no mesmo discurso fascistoide.

Em vídeo divulgado pelos devotos fiéis, na semana em que a polícia miliciana do Rio entrou matando na favela do Jacarezinho, o presidente da República voltou a falar na nomeação de um ministro "terrivelmente evangélico" para a próxima vaga no STF, como se isso tivesse alguma relevância para um país que chora pelos mais de 420 mil mortos na pandemia.

Pergunta-se se antes dos tiroteios da próxima chacina também haverá orações pelos favelados marcados para morrer.

Os Bolsonaros, como se sabe, sempre atuaram em seus mandatos na defesa dos milicianos, por eles condecorados como heróis, e não espanta que tenham chorado apenas a morte do policial, uma das 28 vítimas do massacre do Jacarezinho.

"Mataram foi pouco", escreveram seus seguidores nas redes sociais, expressando um sentimento pouco cristão para quem acha importante nomear um ministro evangélico, encarregado de puxar as orações no STF, o último reduto a ser aparelhado pela nova ordem bolsonarista.

Na disputa territorial que transformou o Rio de Janeiro numa permanente praça de guerra, está tudo junto e misturado, já não se sabe mais quem é quem.

Milicianos, devotos, traficantes, políticos e policiais, alguns acumulando papéis, tomaram conta de boa parte da cidade em que a população acuada já não sabe de quem correr quando as balas começam a pipocar.

Espalhadas por todo o país, as forças paramilitares que se multiplicaram nos últimos anos criaram um estado paralelo, armado até os dentes, em que manda quem pode e obedece quem tem juízo, acima de qualquer lei estabelecida.

Neste faroeste caboclo, o STF ainda era um anteparo para evitar os abusos do poder central, que já controla quase todos os órgãos de controle, colocados a serviço da defesa de familiares e amigos do rei.

Por isso, em todas as manifestações antidemocráticas "em defesa da liberdade" promovidas pelos devotos, os ministros do STF não alinhados são o principal alvo dos ataques que pedem o fechamento do tribunal.

Não por acaso, o desafio ao STF, que havia proibido as operações policiais nas favelas durante a pandemia, sem autorização prévia da Justiça, aconteceu na mesma semana em que o governo se viu acossado pela CPI do Senado que investiga a sua responsabilidade na mortandade provocada pela falta de vacinas, respiradores e oxigênio, e o uso indiscriminado do venenoso "kit-covid".

Também não por coincidência, no dia anterior ao massacre, o presidente Bolsonaro esteve com o governador do Rio, Cláudio de Castro, que autorizou a operação no Jacarezinho.

É tudo a mesma sopa, como costuma dizer o jornalista Mino Carta, está tudo dominado. Ou melhor, quase tudo. Só faltava um STF "terrivelmente evangélico", com orações e tudo, seja lá o que isso significa para as instituições.

Oremos, pois.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL