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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasília pega fogo e Bolsonaro em campanha vai passear de moto em Chapecó

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/06/2021 19h19

Engana-se quem pensa que o presidente Bolsonaro está muito preocupado com o caminhão de denúncias sobre a compra da vacina indiana Covaxin, que envolvem diretamente o seu nome.

Pelo menos, não é o que parece. Nada faz o presidente interromper suas viagens na campanha pela reeleição, o grande projeto do seu governo.

Enquanto Brasília está pegando fogo com a sessão desta sexta-feira na CPI do Senado, que vai ouvir os irmãos Miranda e receber provas de uma suposta maracutaia de grande porte no Ministério da Saúde, no mundo paralelo habitado pelo capitão e seus generais, na ilha da fantasia do Palácio do Planalto, a vida segue seu curso normal.

Hoje, Bolsonaro foi para o interior do Rio Grande do Norte vistoriar algumas obras e anunciar outras. Amanhã, pega de novo o avião presidencial para dar um pulo até Chapecó, em Santa Catarina.

Na falta de obras federais, vai fazer uma visita às reformas que a prefeitura local está fazendo na Arena Condá, o estádio da Chapecoense.

Além disso, aproveitando a viagem, programou mais um passeio de moto com seus seguidores, o carro chefe da campanha reeleitoral.

Em seu tour pelo país, como não pode viajar sozinho, ele sempre vai acompanhado de uma alegre comitiva de ministros, parlamentares e convidados, e ainda uma tropa de seguranças, o que não deve sair barato para os cofres públicos.

No dia seguinte à demissão do ministro Ricardo Salles, alvo de dois inquéritos no STF, acusado de favorecer madeireiros em exportação ilegal de madeira da Amazônia, Bolsonaro não se vexou de comemorar "dois anos e meio sem uma acusação sequer de corrupção no governo".

Em Jucurutu, no Rio Grande do Norte, o presidente fez um discurso de quem vive em outro país: "Nos temos um compromisso: se algo estiver errado, apuraremos. Mas graças a Deus, até o momento, graças à qualidade dos nossos ministros, não temos um só ato de corrupção".

Ricardo Salles era ministro de quem? No Brasil real, a qualidade dos ministros é tão grande que já trocou 16 deles desde a posse (só no Ministério da Saúde já tivemos quatro). Por que Sergio Moro, o paladino contra a corrupção, foi demitido do Ministério da Justiça?

Se não é corrupção, que nome se dá, só para citar um exemplo, à distribuição de bilhões de reais em emendas secretas a parlamentares do Centrão?

De onde veio o dinheiro para montar o império imobiliário da família, se os Bolsonaros sempre foram apenas funcionários públicos e não ganharam na mega-sena? O que fazia Fabrício Queiroz nos gabinetes da família? "Rachadinha" é o quê?

"Hoje passei o dia apagando incêndios", reclamou o presidente no fim da quarta-feira em que estourou o escândalo da Covaxin e Ricardo Salles foi defenestrado do ministério de qualidade.

Quem botou fogo em Brasília?

Bolsonaro sempre foi assim. Acende o fósforo e sai correndo quando o circo pega fogo, gritando: "Fogo!"

Sem ter nada de bom para mostrar em seu governo, o capitão fez da honestidade o seu grande diferencial, e assim se criou o "Mito", em 2018. Dois anos e meio de governo depois, há controvérsias. A vida é dura, mesmo para quem tem físico de atleta.

Por isso, ele prefere viver viajando para Jucurutu ou Chapecó, tanto faz, do que tendo que ficar em Brasília para governar.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL