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Balaio do Kotscho

Com medo do relatório da CPI, Bolsonaro chora e se faz de vítima do mundo

CPI deve atribuir 11 crimes a Jair Bolsonaro  - Reprodução TV
CPI deve atribuir 11 crimes a Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução TV
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

16/10/2021 17h16

Acusado no relatório final da CPI da Covid, que será votado na próxima quarta-feira, de ter praticado 11 crimes durante a pandemia, Bolsonaro agora está com medo de tudo e quer fazer papel de vitima.

Nunca um presidente da República foi acusado de tantos e tão graves crimes ao mesmo tempo (ver a relação mais abaixo) no exercício do mandato.

Podem reparar: sempre que a situação aperta para o lado dele, o capitão valentão corre para os quartéis ou os templos.

Esta semana, como o seu prestígio com os militares anda em baixa, depois do fuzuê golpista de 7 de setembro, Bolsonaro recorreu mais uma vez aos pastores amigos.

Num encontro organizado pela igreja evangélica Comunidade das Nações, em Brasília, o presidente pediu piedade:

"Quantas vezes eu choro no banheiro em casa. Minha esposa nunca viu. Ela acha que eu sou o machão dos machões. Em parte, acho que ela tem razão até..."

A revelação patética não combina com sua imagem combativa nos palanques, de onde nunca desceu, desde que foi eleito, atirando para todos os lados, agora em busca da reeleição.

"Cada vez mais, nós sabemos o que devemos fazer. Para onde devemos direcionar nossas forças.(...) A gente não pode o tempo todo ser tolhido, impedido, por qualquer coisa, de prosseguir na nossa missão", desabafou o pobre presidente, em seu novo figurino de perseguido pelo mundo, insinuando que os outros poderes não o deixam governar.

Se sabe, por que não faz nada para tirar o Brasil desse buraco?

Na sexta-feira, depois de ser apontado pelo senador Renan Calheiros como principal responsável pela tragédia dos mais de 600 mil mortos na pandemia, Bolsonaro voltou ao "cercadinho" dos devotos no Alvorada e foi ao ataque:

"O Renan me chama de homicida, um bandido daquele. Bandido é elogio para ele. O Renan está achando que não vou dormir porque está me chamando de homicida, está de sacanagem".

Mais do que homicida, o presidente foi qualificado também como genocida de populações indígenas, a quem negou água potável, comida e tratamento correto contra a Covid, apenas enviando caminhões de cloroquina, o remédio que não cura, mas pode matar.

Eis a relação de crimes em que é acusado no relatório da CPI:

* infração de medida sanitária preventiva

* epidemia com resultado morte

* charlatanismo

* incitação ao crime

* falsificação de documento particular

* emprego irregular de verbas públicas

* prevaricação

* genocídio de indígenas

* crimes de responsabilidade (violação de direito social e incompatibilidade com dignidade, honra e decoro do cargo)

* homicídio comissivo por omissão

Esse poderia ser o prontuário criminal do maior "serial killer" do século 21, sem falar na destruição das florestas, do meio ambiente, da educação, da ciência e da cultura. Do nosso futuro, enfim. Seria essa a sua "missão"?

Além disso, o relatório prevê o envio de denúncia de "crime contra a humanidade" ao Tribunal Penal Internacional. É mais provável ele ser condenado lá do que aqui.

Se Bolsonaro já sofria de problemas de insônia crônica antes desse relatório, agora poderá passar o restante de suas noites no Alvorada chorando no banheiro, se é que é verdade o que ele falou. Não posso imaginar Bolsonaro chorando, depois de dizer "e daÍ, eu não sou coveiro?", diante das milhares de mortes que iam se acumulando no país desde março do ano passado _ e que poderiam ter sido evitadas. .

No máximo, o capitão poderá se preocupar com o destino dos seus filhos, também citados no relatório da CPI, junto com dezenas de ministros, ex-ministros, empresários amigos e ex-funcionários da alta administração federal.

O pior é que Bolsonaro não pode nem sair do Brasil. Qual outro país civilizado o receberia? Quem o convidaria? Para receber um único chefe de Estado estrangeiro esse ano, ele teve que mandar um avião da FAB buscá-lo na África.

Único chefe de Estado do G-20 ainda não vacinado, o presidente está em dúvida se participará da próxima reunião sobre o clima, programado para Glasgow, na Escócia, no final do ano. Melhor mesmo não ir. Maior vilão do aquecimento global, com as crescentes queimadas na Amazônia, o que ele faria lá, o que teria a contribuir?

Vida que segue.