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Balaio do Kotscho

Que vergonha! Para a justiça do futebol da CBF, injúria racial não é crime

Celsinho, do Londrina, com o punho cerrado em ato antirracista, um jogo após ser vítima de racismo - Ricardo Chicarelli/ Londrina FC/ Flickr
Celsinho, do Londrina, com o punho cerrado em ato antirracista, um jogo após ser vítima de racismo Imagem: Ricardo Chicarelli/ Londrina FC/ Flickr
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

18/11/2021 18h07

Ao devolver os pontos tirados do Brusque, por ter cometido um crime de injúria racial contra o jogador Celsinho, no jogo contra o Londrina, o que vai mudar a tabela de classificação da Série B, o Pleno do Superior Tribunal de Justiça Esportiva (STJD) contribui para que o futebol dê mais um péssimo exemplo para a sociedade.

Por decisão dos meritíssimos senhores juízes esportivos, com a jurisprudência criada, daqui para a frente os estádios de futebol serão um território livre para a prática de crimes de racismo, que estão se tornando cada vez mais comuns.

A sentença é definitiva. Não cabe recurso, nem para a Justiça comum.

Em 1ª instância, o Brusque tinha sido punido com a perda de três pontos, que poderiam significar seu rebaixamento para a Série C, mas agora só foram mantidas as multas para o clube (R$ 60 mil) e para o dirigente Júlio Antônio Petermann (R$ 30 mil), autor das ofensas, que também foi suspenso por 360 dias.

Saiu barato. Perdeu-se uma grande oportunidade para uma punição exemplar, capaz de inibir os idiotas que se julgam superiores por causa da cor de pele ou do estilo de cabelo.

Para dirigentes de futebol, R$ 30 mil é dinheiro de gorjeta e a suspensão não tem como ser fiscalizada, mas se Petermann fosse o responsável pela queda do Brusque para uma divisão inferior, certamente ele respeitaria mais os negros no futebol e na vida. A torcida comeria a pele dele.

Este caso poderia ser citado como exemplo nas aulas de cidadania nas escolas e até ser tema da redação na prova do Enem. Servirá apenas para aumentar a impunidade dos delinquentes.

Com a punição apenas pecuniária ao clube e ao cartola, como se o dinheiro das multas pudesse curar as feridas do ofendido, vai continuar tudo do jeito que está, com o preconceito crescente em todas as áreas da sociedade.

Ainda esta semana, um comentarista bolsonarista (redundância) da rádio Jovem Pan sentiu-se no direito de atribuir ao Holocausto, em que morreram 6 milhões de judeus, o crescimento econômico da Alemanha no pós-guerra.

Para ele, é só matar os judeus e tomar o dinheiro deles que todos os nossos problemas seriam resolvidos. E o sujeito continua solto, deitando regras desse tipo por aí, sem medo de ser cretino.

E o que vai acontecer com o elemento? Também pagará seu crime doando cestas básicas para um orfanato?

A cada dia mais, multiplicam-se os casos de racismo nas escolas e nos estádios de futebol, por toda parte, sem que se tenha notícia de que alguém foi preso. Não se trata de opinião, mas de crime.

Vida que recomeça.