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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Hepatite misteriosa em crianças avança na Europa e alarma médicos no Brasil

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Imagem: iStock
Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

27/04/2022 04h00Atualizada em 27/04/2022 13h59

A OMS (Organização Mundial de Saúde) emitiu alerta sobre um novo tipo de hepatite que está atingindo crianças e que tem levado uma em cada dez a precisar de transplante do fígado.

Os casos apareceram no Reino Unido e começam a se espalhar pela Europa. Até 21 de abril, houve 158 crianças afetadas em dez países do velho continente. Os EUA já notificaram nove casos e Israel, 12. Uma morte foi registrada —a OMS não especifica onde. Até hoje, 17 pacientes precisaram de transplante.

A nova manifestação elevou a gravidade da doença a patamares inéditos e alarmou especialistas no Brasil. Eles defendem que os serviços de saúde se preparem e fiquem atentos a casos suspeitos de hepatite sem confirmação de agentes infecciosos já conhecidos.

"As investigações estão em andamento para o agente causador", diz nota da OMS do dia 23, que classifica a doença como "hepatite aguda de etiologia desconhecida". Para ajudar outros países, a Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido emitiu orientações para os países afetados para apoiar na investigação de casos suspeitos.

Casos notificados pelo mundo até 21 de abril:

  • Reino Unido - 114
  • Espanha - 13
  • Israel - 12
  • EUA - 9
  • Dinamarca - 6
  • Irlanda - 5
  • Holanda e Itália - 4
  • Noruega e França - 2
  • Romênia e Bélgica - 1
Quadro informativo da OMS - Reprodução/OMS - Reprodução/OMS
Quadro informativo da OMS mostra países já com casos notificados
Imagem: Reprodução/OMS

Alerta máximo no Brasil

A notícia dos casos colocou em alerta os infectologistas, que avaliam como provável o aparecimento da doença no Brasil.

"Isso preocupa muito porque ela está se espalhando rapidamente. Estamos presumindo que [o número de casos] vai aumentar, ainda mais agora com as viagens em alta com a pandemia mais controlada. É grande a possibilidade de chegar no Brasil", afirma Marcelo Simão, professor da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e ex-presidente da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) entre 2010 e 2014.

Segundo a OMS, o principal suspeito até agora seria uma infecção causada pelo adenovírus do tipo 41.

"O adenovírus tipo 41 geralmente se apresenta como diarreia, vômito e febre, muitas vezes acompanhados de sintomas respiratórios. Embora existam relatos de casos de hepatite em crianças imunocomprometidas com infecção por adenovírus, o adenovírus tipo 41 não é conhecido como causa de hepatite em crianças saudáveis", diz o comunicado.

A OMS recomenda aos países que os pacientes passem por exames de sangue, soro, urina, fezes e amostras respiratórias, bem como amostras de biópsia hepática (quando disponíveis), com caracterização adicional do vírus, incluindo sequenciamento. "Outras causas infecciosas e não infecciosas precisam ser minuciosamente investigadas", diz.

Marcelo Simão conta que o principal agente suspeito, o adenovírus, já é bem conhecido da medicina e causa surtos em diversos países, mas com casos de diarreia e resfriado simples. "Ele pode ter sofrido mutações e se tornado mais transmissível e agressivo", diz.

Caso o adenovírus seja confirmado como agente causador, Simão teme que haja disseminação por todo o mundo por conta da facilidade de contágio.

Esse vírus é adquirido por alimentação ou contato de uma criança com a outra, por isso a OMS está preocupadíssima. Começamos a perceber esses casos, e em duas, três semanas eles já se espalharam. É muito preocupante e temos de aguardar mais estudos.
Marcelo Simão, infectologista

Se for um agente novo, diz, a ciência deve correr para conseguir uma vacina o mais breve possível para proteger as crianças, como ocorreu com o coronavírus. "As hepatites agudas conhecidas hoje são controladas por vacinação e tratamento. Mas essa é nova, não sabemos sequer se é um pico epidêmico e ela vai sumir. Se permanecer, precisamos proteger nossas crianças", diz.

Taxa de transplante cem vezes maior

O professor e hepatologista do Complexo Hospitalar da UFC (Universidade Federal do Ceará) José Milton de Castro Lima explica que essa hepatite ainda é misteriosa porque não se enquadra em nenhum dos cinco tipos conhecidos pela medicina.

"Nós temos vírus que são conhecidos, chamados de hepatotrópicos. Eles produzem hepatites A, B, C, D e E. Esses casos notificados não preenchem nenhum dos requisitos", explica.

Segundo Lima, no caso dos vírus já conhecidos, a hepatite fulminante é muito mais rara. "Temos um caso entre mil e 10 mil que pode evoluir para forma fulminante. Esse percentual de um a cada 10 é novo e tem chamado atenção. É um número grande, indica uma doença bem mais grave que a que vemos hoje", afirma.

O professor conta que uma hepatite fulminante leva a pessoa a uma necessidade de transplante urgente de fígado, como ocorreu com 17 crianças, segundo a OMS.

"Ela ocorre quando a agressão é tão grande que a pessoa começa a ter dificuldade ou perde a capacidade de produzir as substâncias [produzidas pelo fígado] necessárias para coagulação. E aí vem a encefalopatia, que dá confusão mental, a pessoa começa a se urinar", diz. Você tem substâncias produzidas no sangue, a maioria no fígado, ele pode desenvolver uma coagulação muito grande, morrer de sangramento.

Precisamos chamar a atenção para os casos de hepatite e fazer o teste também para os adenovírus. É um alerta que faço a todos os pediatras.
José Milton de Castro Lima, hepatologista

Imagem do vírus da Hepatite C - BSIP/Colaborador Getty Images - BSIP/Colaborador Getty Images
Imagem do vírus da Hepatite C
Imagem: BSIP/Colaborador Getty Images

Agente desconhecido e misterioso

O adenovírus, informa a OMS, foi encontrado até aqui em 74 amostras de crianças doentes. Em 20 das amostras, também foi encontrado o SARS-CoV-2, agente causador da covid-19.

O virologista Fernando Spilki, da Universidade Feevale (RS), afirma que ainda não é possível saber, mas ele acredita que podemos ter "uma terceira causa" responsável pelos adoecimentos.

"Não é uma manifestação comum, nem no adenovírus, nem no SARS-CoV-2", explica. "O adenovírus é transmitido pela água, especialmente em localidades onde você tem um saneamento básico mais precário. Ele é relativamente frequente como causador de surtos de gastroenterites, tanto em adultos como crianças, mas a gente não vê essa associação dele com hepatite tão forte", diz.

Sobre o adenovírus, a OMS lembra que ele "não foi previamente associado a tal apresentação clínica". "Embora o adenovírus seja atualmente uma hipótese como causa subjacente, ele não explica totalmente a gravidade do quadro clínico", diz a OMS.

Para Spilki, é "estranho" que a causa seja o adenovírus, mas não é impossível. "Não está descartada a hipótese de algum adendo ou até um vírus aparentado o adenovírus 41 mutado, ou com algum tipo de modificação, que altere esse patogenicidade e induza uma nova manifestação clínica", diz.

É notável que se observe esses surtos consecutivos com as mesmas caraterísticas em diversos países, ou por um agente já conhecido, mas talvez alterado, ou mesmo por um vírus ou outro microrganismo ainda desconhecido.
Fernando Spilki, virologista

Logo da OMS na sede da entidade em Genebra - Denis Balibouse/Reuters - Denis Balibouse/Reuters
Logo da OMS na sede da entidade em Genebra
Imagem: Denis Balibouse/Reuters

A doutora e professora de Doenças Tropicais da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Vera Magalhães afirma que existia uma dúvida se o agente causador seria um infeccioso desconhecido ou químico.

"Acredita-se que seja um agente infecciosa porque ela está ocorrendo em pessoas que têm contato com outras, e essas crianças não viajaram. As crianças doentes também não tinham história de ingestão de medicamentos ", explica.

Ela diz que os pacientes desses casos são principalmente as crianças de até 10 anos de idade, que e apresentam, entre sintomas, icterícia, vômito, diarreia, dor abdominal.

Para Magalhães, ainda é cedo até mesmo para descartar a covid-19 como uma das responsáveis. "A variante ômicron em sua linhagem BA.2 foi identificada nas amostras; não se sabe até se o vírus modificou o sistema imunológico dessas crianças a ponto de reagir de forma mais agressiva ao adenovírus e a outras viroses respiratórias —que também foram detectadas em alguns pacientes", completa.

À coluna, o Ministério da Saúde informou hoje "os Centros de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS) monitoram junto aos núcleos de epidemiologia hospitalar da Rede Nacional de Vigilância Hospitalar (RENAVEH) qualquer alteração do perfil epidemiológico, bem como a detecção de casos inesperados de hepatite aguda grave em crianças".

"A pasta orienta aos profissionais de saúde e da Rede Nacional de Vigilância, Alerta e Resposta às Emergências em Saúde Pública do Sistema Único de Saúde (VigiAR-SUS) que estejam atentos e que suspeitas sejam notificadas imediatamente", completa a pasta, citando que ainda não há casos registrados.