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Carolina Brígido

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Marco Aurélio alfineta Bolsonaro ao chamar Moro de herói nacional

Marco Aurélio Mello durante sessão do STF - Reprodução
Marco Aurélio Mello durante sessão do STF Imagem: Reprodução
Carolina Brígido

Escreve sobre Judiciário, especialmente o STF, desde 2001. Participou da cobertura do mensalão, da Lava-Jato e dos principais julgamentos dos últimos anos. Foi repórter e analista do jornal "O Globo" de 2001 a 2021. Foi colunista a revista "Época" de 2019 a 2021.

Colunista do UOL

23/06/2021 15h57Atualizada em 23/06/2021 16h27

O STF (Supremo Tribunal Federal) presenciou o provável ato final do ministro Marco Aurélio Mello nesta quarta-feira (23). Com aposentadoria agendada para 12 de julho, ele votou no último julgamento polêmico de que deve participar em 31 anos na cadeira. Aproveitou para defender em plenário a Lava Jato e a atuação do ex-juiz Sérgio Moro, que chamou de herói nacional.

O placar já estava definido desde abril pela declaração da parcialidade de Moro na condução de processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda assim, Marco Aurélio fez questão de reafirmar seu discurso lavajatista.

"O juiz Sérgio Moro surgiu como verdadeiro herói nacional e então, do dia para a noite, ou melhor, passado algum tempo, é tomado como suspeito. E daí caminha-se para dar-se o dito pelo não dito, em retroação incompatível com os interesses maiores do Brasil", disse Marco Aurélio em plenário.

O ministro também disse no voto que os diálogos em que Moro e procuradores da Lava Jato combinavam estratégias sobre a condução de processos contra Lula não têm nada de mais. E lembrou que as conversas não podem ser usadas como prova de nada, porque as gravações foram realizadas de forma ilícita.

Antes do voto do decano, 7 dos 11 ministros já tinham votado, em abril, pela parcialidade de Moro. Marco Aurélio pediu vista e o julgamento só foi retomado hoje, com o voto de Marco Aurélio e do presidente do Supremo, Luiz Fux. O placar final foi de 7 a 4, confirmando a decisão da Segunda Turma que decretou a suspeição de Moro no caso do tríplex.

O recado é claro para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que foi alvo de acusações de Moro. Ao deixar o posto no ano passado, o ex-ministro da Justiça afirmou que Bolsonaro interferiu indevidamente nas atividades da Polícia Federal. A acusação rendeu processo contra o presidente no STF.

Vale lembrar: Bolsonaro vai indicar o substituto de Marco Aurélio em julho. Por ser um aliado do presidente, o novo integrante, provavelmente, não defenderia a conduta de Moro. Marco Aurélio fez vários apelos públicos ao presidente do STF, Luiz Fux, para incluir o julgamento sobre a parcialidade de Moro na pauta do plenário antes de sua aposentadoria, ainda que seu voto não fosse mudar o placar. Certamente, Marco Aurélio estava com o recado preso na garganta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL