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Chico Alves

"Era como se fosse a cruz do túmulo do meu filho, que não consegui velar"

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/06/2020 04h00

O taxista Marcio Antonio do Nascimento Silva completa 56 anos hoje, mas não vai comemorar o aniversário. No dia 18 de abril, teve que chorar a morte do filho Hugo, de 25 anos, vítima de covid-19. Nas semanas seguintes, agarrou-se à espiritualidade — é kardecista — e ao apoio da mulher, que é psicóloga, para não cair em depressão. Na última quinta-feira, porém, ao caminhar pelo calçadão de Copacabana, teve novo choque: viu um homem atacar crucifixos que homenageavam as vítimas da pandemia. "Uma daquelas cruzes representava meu filho", define Silva.

Indignado, ele pisou na areia para recolocar as cruzes no lugar, enquanto era chamado de "esquerdista" e "comunista" por alguns provocadores e aplaudido por outro grupo. As imagens do homem que desrespeitou a homenagem às vítimas do coronavírus e a reação de Silva circularam bastante pelas redes sociais e pelos veículos de imprensa. "Recebi telefonemas me apoiando, não acompanho redes sociais".

Sem ser agressivo, ele não teve dúvida em resistir. E não se arrepende. "Pensei: eles podem derrubar cem vezes que eu vou recolocar cem vezes".

Nessa entrevista emocionada à coluna, o taxista explica o que aconteceu nesse que foi um dos episódios mais emblemáticos da epidemia de ódio que o Brasil atravessa. Silva diz como enxerga esse momento do país, que leva as pessoas a quebrarem regras básicas de civilidade em nome da política. "Agora o ódio é contra a gente, contra nós que somos vítimas", observa. "Eu não tenho nada a ver com política, quero apenas respeito à minha dor, à dor de outras vítimas".


SEM HUMANIDADE
"É um momento muito estranho. Eu acho que falar sobre isso vale a pena, quem sabe essas pessoas passam a refletir um pouco. Parecem estar tão cegas, é como se tivessem perdido a humanidade. Talvez tenha gente que está indo na onda sem estar esclarecida, sem saber o que está acontecendo. A minha questão ali era só a de um pai que estava sofrendo. Não tinha nada a ver com política. Era uma questão da relação entre as pessoas".

PROVOCAÇÕES
"Vi a manifestação de longe e fui me aproximando. Confirmei que era um protesto a favor das vítimas da covid. Ali já me deu uma chacoalhada, me emocionou. Quando chegamos perto, vi que tinha um grupo provocando muito o pessoal da ONG que fez o protesto. Chamavam de comunistas, de esquerda, que eram isso e aquilo, que não tinham direito de fazer aquilo na praia, que a praia é pública, Mas a praia continuou livre, era apenas um pequeno espaço, não impedia ninguém de ir e vir. Por um tempo fiquei ali ouvindo essas provocações.

Estava chateado, mas cada um fala o que quer. Até que em um momento aquele homem começou a derrubar as cruzes. Caramba, eu senti uma coisa no meu coração...Pensei assim: 'que falta de respeito'. Era como se fosse uma homenagem ao meu filho, a outras pessoas que são vítimas. Mesmo revoltado, eu esperei. Achei que iria só derrubar a primeira fileira de cruzes, mas não, ele foi derrubando a primeira e a segunda. Aí eu pensei: se ele tem o direito de derrubar, eu tenho o direito de colocar no lugar".

REPRESENTAÇÃO DO FILHO
"Era como se fosse a cruz do túmulo do meu filho, que não consegui velar. Uma daquelas cruzes representava ele. Será que se fosse com o filho dele que tivesse acontecido ele faria isso? Esse grupo também era muito específico, nenhum deles usava máscara. Eu uso máscara não só para me proteger, mas também em respeito ao outro".

ÓDIO CONTRA VÍTIMAS
"Não impedi ele de fazer nada, como se pode ver no vídeo, não ofendi ninguém, apenas me senti no direito de colocá-las no lugar. Porque aquilo representava meu filho e a maioria das vítimas. Só falei alguma coisa quando me chamaram de comunista. Não quero entrar nesse mérito, mas quis colocar para ele que sou apenas um pai que estava sentindo uma dor incrível. É todo dia a briga contra essa dor (nesse momento da entrevista, Silva chora). Eu queria que elas entendessem isso. Agora o ódio é contra a gente, contra nós que somos vítimas. Disse que quero só respeito".

Marcio Antonio do Nascimento Silva  - Reprodução de vídeo - Reprodução de vídeo
Marcio Antonio do Nascimento Silva
Imagem: Reprodução de vídeo

A DOR QUE É UMA BOMBA
"A dor é muito grande. Não entrei em depressão, graças a Deus, não tive fobia, estou tentando tocar a vida, ajudar as pessoas, levar uma palavra amiga, mas a dor continua lá dentro, é uma bomba que explode. Você tem um gatilho. Minha esposa estava comigo, disse que eu não fui ofensivo em nenhum momento. Meu pensamento ali era o seguinte: eles podem tirar cem vezes que eu vou recolocar cem vezes. Primeiro disseram que era um protesto de esquerda, depois gritaram 'Lula ladrão'. Eu não estava entrando nessa provocação, porque não tenho nada a ver com política".

SEM ABRAÇO
"Será que eles não entendem a minha dor de ter que ir no hospital, reconhecer o corpo dele, não poder abraçar, não poder cuidar, não poder botar uma roupa nele, ver ele ser jogado dentro de um saco. Será que não entendem que não pude velar meu filho? (Silva chora novamente).

É muita coisa dentro do coração. Você tentar fazer dessa imagem em vez de uma coisa terrível uma coisa bonita não é fácil, é uma luta de todos os dias. Você tentar superar, tentar não entrar em depressão. Não vou dizer que superei, mas estou conseguindo manter a mente saudável, com a dor normal. Mas tem hora que extrapola, quando a gente vê tanta coisa ruim, tanto deboche. Tinha um cara na minha rua que ficava gritando 'e daí?'. Eu perdi meu filho querido e ouvia o cara ficar gritando 'e daí?'"

OMISSÃO
"Depois que reagi, bateram palmas para mim. Mas quando ele tirou as cruzes, ninguém fez nada. Eles estavam ofendendo o pessoal da ONG e o pessoal da ONG quieto. Eram uns seis. Depois muitos bateram palmas para mim".

COMUNISMO X FASCISMO
"Quando viram meu ato, primeiro começaram a me chamar de esquerdista e outras coisas. Eu disse que era apenas um pai que exige respeito. O próprio cara que estava derrubando parou de derrubar.

Não sei nem o que é comunismo, pra falar a verdade, eu não estudo isso. Também não chamo ninguém de fascista, porque eu não sei o que é fascismo, eu não estudo isso. Eu nunca li livros sobre isso. Agora, desrespeito eu sei o que é. Intolerância eu sei o que é".

Hugo Silva - Reprodução - Reprodução
Filho do taxista Marcio Silva, Hugo, de 25 anos, morreu de covid-19
Imagem: Reprodução

COVID NÃO É FAKE NEWS
"Ali foi um impulso de pai, me senti muito ofendido. É um sentimento muito ruim. Será que se essa pessoa conhecesse meu filho, soubesse o doce que ele era, será que faria a mesma coisa? Sempre tive essa postura de me dar bem com todo mundo. Tirei a política da minha cabeça porque achei que estava me fazendo mal. Mas sempre tento ajudar as pessoas.

Já tinha feito um vídeo antes, quando meu filho fez a passagem, dizendo para as pessoas se cuidarem. Porque acho que é um dever cívico, apesar de toda a minha dor, mostrar que essa doença não é fake news. Ele não tinha doença preexistente, não fumava".

FALTA DE EMPATIA
"Aquele fato me fez perguntar até onde chega a desumanidade de não ter empatia com o outro. Esse pessoal parece que procura inimigos o tempo todo. Todos que não pensam como eles são inimigos. Fiquei muito triste com essas pessoas, porque estou vendo isso em amigos próximos. Parece que perderam a razão, não dá nem para você conversar. Parece que não pensam mais. É puro ódio. Tudo para eles é política, mesmo onde não existe. Por isso, o ato simbólico é mais importante.".

Hugo Silva, internado por covid-19 - Reprodução - Reprodução
Filho de Marcio Silva, Hugo ficou internado antes de morrer por causa da covid-19
Imagem: Reprodução

ESPERANÇA NO PAÍS
"Tenho muita esperança de que o nosso país vai melhorar, vai se modificar. Essas pessoas sempre existiram, mas elas se escondiam porque não tinham oportunidade de se mostrar. São pessoas racistas, intolerantes, que sempre existiram. Isso serve, de certa forma, para mostrar como isso é ruim para o nosso país. É um mal necessário, acho que vai fazer bem para o país mais tarde.

É um mal tão grande que não precisamos fazer nada para combater, porque eles combatem a si mesmos. Eles mostram o quanto é ruim viver na intolerância e na falta de respeito. O respeito ao próximo é uma coisa muito importante.

Não concordo quando essa gente diz que fala em nome do povo. Não. Eles não representam a gente. Eles representam um grupo minoritário. Disse lá que eles não representam o povo, sou um cara que trabalho, gosto da paz, respeito as pessoas, todas as religiões, todas as tendências políticas, procuro ouvir as pessoas que têm opiniões contrárias. Mesmo que não concorde, eu não bato de frente, respeito a opinião de cada um. A palavra é essa: respeito. É o que eles não têm".

CONTRA O ÓDIO, AMOR
"E se eu fosse um cara violento, se não fosse um cara da paz? Não fiz nada contra eles, só recoloquei as cruzes. Se eu não estivesse bem, em vez de recolocar eu poderia impedir ele de tirar. Mas é assim que nós temos que agir. Temos que agir diferente. Meu ato foi de amor e solidariedade, se eu fizer um ato de ódio eles estarão me vencendo".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.