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Chico Alves

Ave, Bolsonaro. As vítimas do coronavírus o saúdam

 Jair Bolsonaro, presidente da República, segura uma caixa de Cloroquina no Palácio da Alvorada  - MATEUS BONOMI/ ESTADÃO CONTEÚDO
Jair Bolsonaro, presidente da República, segura uma caixa de Cloroquina no Palácio da Alvorada Imagem: MATEUS BONOMI/ ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

22/08/2020 15h33

Diagnosticado com covid-19, o advogado Eduardo Passos dos Santos, de 41 anos, ficou internado no Hospital Regional de Ceilândia (HRC), no Distrito Federal. No dia 10 de agosto teve uma piora e precisou ser transferido para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Segundo a família, a vaga só foi liberada 12 horas depois. Eduardo acabou morrendo.

Em maio, o enfermeiro Evandro da Silva Costa, de 42 anos, morreu no Amapá por causa do coronavirus. Primeiro procurou o Hospital de Clínicas, em Macapá, que não era referência na doença. Foi depois para uma unidade de referência, mas continuou em risco: não havia no estoque sedativo para a intubação. A família fez um mutirão, conseguiu os insumos e uma bomba de infusão. Quando isso aconteceu, porém, já era tarde.

Casos como o de Eduardo e de Evandro, em que o vírus tornou-se ainda mais letal por falta de recursos, têm sido muito frequentes desde o início da pandemia no Brasil. Desacertos de governantes de todas as instâncias levaram o país à trágica marca de 113 mil mortes.

Alguns governadores e prefeitos erraram muito. Mas outros governadores e prefeitos acertaram muito também.

O governo federal acertou muito pouco. Fez o mínimo de esforço em uma situação de pandemia que exigia o máximo de dedicação.

O negacionista Jair Bolsonaro não agiu a partir da ciência, mas de acordo com suas convicções. Pela insistência com a cloroquina, trocou dois ministros da Saúde no meio da crise crescente. Colocou no posto o general Eduardo Pazuello que se submeteu aos seus caprichos.

Enquanto as prateleiras do ministério se enchiam de cloroquina, os estados precisavam desesperadamente de medicamentos para intubação. Ainda precisam.

Cinco meses após o início da pandemia, o governo só gastou metade da verba destinada à covid-19. Pior: até agora não tem um plano de ação.

Por isso, há um mês o país registra mais de mil mortes diárias por coronavirus. É referência de fracasso mundial.

Diante desse cenário desolador, o presidente Bolsonaro marcou para segunda-feira o evento "Brasil vencendo a covid-19". Dessa forma, vai além da falta de empatia, que é a sua marca.

Celebrar vitória sobre o coronavirus com 113 mil mortos é tripudiar sobre as vítimas.

O patamar da estatística é tão estratosférico que parece ter anestesiado os brasileiros, o país não reage de acordo com o tamanho do drama.

Saiamos, então, do campo abstrato dos números. Basta imaginar o que familiares e amigos de Eduardo e Evandro devem estar achando dessa ideia estapafúrdia de Bolsonaro, de cantar vitória em meio à tragédia.