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Em vídeo de 26 segundos, o embate entre a fantasia e a violência na favela

Polícia Militar em operação em favela do Rio - Domingos Peixoto/Agência O Globo
Polícia Militar em operação em favela do Rio Imagem: Domingos Peixoto/Agência O Globo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

27/08/2020 17h04

Crianças costumam viver em uma dimensão própria, sem se importar com o que acontece no mundo dos adultos. Isso evita que os sofrimentos e desilusões tornem a vida amarga cedo demais. Depois da infância, o ser humano tem muitas décadas pela frente para sofrer e se encantar, não é preciso pressa.

Há, porém, um contingente de meninos e meninas que é obrigado a deixar muito cedo esse espaço acolhedor da fantasia. São filhos de uma realidade dura. As estatísticas mostram as dificuldades por que passam as crianças pobres no Brasil, em geral negras.

Em cada pedaço do país, os pequenos que vivem na pobreza têm dificuldades peculiares, mas certamente o cotidiano dos que estão nas favelas é um dos mais duros.

Se a criança morar em uma favela carioca em tempo de disputa de facções, então, vai ter espaços de fantasia ainda mais escassos. Já nos primeiros anos, terá contato com cenas bárbaras que um adulto morador de qualquer bairro remediado do Rio nunca presenciará.

Somente com palavras dificilmente será possível traduzir a tragédia que isso representa.

Por isso, o vídeo gravado em uma casa simples, em pleno confronto de traficantes que hoje se desenrola no morro carioca de São Carlos, está emocionando as redes sociais. Em apenas 26 segundos, a imagem apresenta um resumo dramático de como nessa situação uma pequena criança tem seu espaço de fantasia invadido pelo terror.

À noite, de dentro sua casa, com a luz apagada, alguém usa o celular para gravar a movimentação de homens armados de fuzis, cujos vultos podem ser vistos através do vidro translúcido da porta. São muitos, que passam correndo, enquanto dentro do cômodo certamente todos torcem para que nenhum deles invada o imóvel.

Todos, menos uma criança de pouco tempo de vida, que balbucia alegremente algumas sílabas, sem saber do perigo. Ela não aparece no vídeo, mas sua presença é sentida pela quase música que emite, um som doce que contrasta com os passos duros dos que estão envolvidos no confronto lá fora.

Em outros lugares, onde o barulho de tiros não seja tão familiar, qualquer mãe sorriria ao ouvir o filho ou filha brincar assim, buscando formar as primeiras palavras. Na noite do São Carlos, porém, não há lugar para enlevo. Só medo.

"Shhhh! Cala a boca, Bela! Cala a boca...", sussurra a mãe para a filha, temendo que a vozinha atraia a atenção dos homens armados.

Não se sabe se essa foi a primeira vez que a realidade que a cerca passou tão perto daquela criança, mas certamente não será a última. Como acontece com outros pequenos que vivem em situação semelhante, o espaço que ela tem para brincadeiras desde cedo é reduzido pela violência.

No curto tempo do vídeo, a mulher do São Carlos não teve como acompanhar as 34 sílabas deliciosamente cantaroladas pela filha. Nesses mesmos segundos, estava preocupada demais com a passagem de 11 homens armados de fuzis. A rotina trágica que ela deve conhecer bem, a sua pequena começa a conhecer agora.

O vidro da porta dá à gravação um efeito que poderia ter sido planejado por algum diretor de cinema, torna a cena quase irreal. Infelizmente para a mãe e para a criança, tudo aquilo acontece de verdade nas comunidades do Rio de Janeiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.