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Para Bolsonaro, decisão monocrática no caso dos outros é refresco

O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado do governador afastado do RJ Wilson Witzel - Pedro Ladeira/	Folhapress
O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado do governador afastado do RJ Wilson Witzel Imagem: Pedro Ladeira/ Folhapress
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

31/08/2020 04h04

O desabafo entrou para a extensa antologia de despautérios ditos por Jair Bolsonaro: "Acabou, porra!". Essa grosseria foi dita há três meses. Muitos lembram da frase, mas nem todos recordam o motivo que o levou a explodir.

Naquela ocasião, Bolsonaro se mostrava irritado com algumas decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Sem ouvir seus pares, Moraes decidiu que o delegado Alexandre Ramagem não poderia assumir o comando da Polícia Federal, como queria o presidente. O ministro também determinou busca e apreensão nas casas de bolsonaristas do chamado gabinete do ódio.

Antes do palavrão, dito à frente de sua claque, no cercadinho do Alvorada, Bolsonaro reclamou do STF. "Não podemos falar em democracia sem Judiciário independente, Legislativo independente para que possam tomar decisões. Não monocraticamente, mas de modo que seja ouvido o colegiado", disse.

O que achou tão ruim para si, porém, Bolsonaro considera até engraçado quando atinge os adversários.

Na sexta-feira, ao comentar sobre o governador fluminense, Wilson Witzel (PSC), que foi tirado do cargo por decisão monocrática do ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça, o presidente debochou.

"O Rio está pegando hoje. Está sabendo do Rio hoje? Governador já? Quem é teu governador?", ironizou Bolsonaro, aos risos, dirigindo-se a um apoiador, na saída do Alvorada.

Nenhuma palavra sobre o fato de a decisão de tirar Witzel do comando do Executivo fluminense ter sido tomada de forma monocrática, como Bolsonaro criticara meses atrás, quado se sentiu prejudicado.

Com as devidas proporções, a decisão sobre Witzel é muito mais grave. Moraes impediu que Bolsonaro nomeasse um integrante da equipe. Já o ministro do STJ tirou sumariamente do poder um político que teve 4,6 milhões de votos.

Que grande capacidade de obstruir as investigações Witzel teria se Benedito Gonçalves esperasse até a próxima quarta-feira para submeter a decisão a seus pares?

Em uma democracia de verdade, não pode ser algo banal que a assinatura de um juiz se sobreponha à vontade de milhões de eleitores, a não ser que haja motivos muito claros para isso, o que parece não ter sido o caso.

Há regimes autoritários das mais diferentes naturezas. Existem os ditadores que são dominados por militares, por religiosos, por máfias. Quase todos contam com integrantes do Judiciário que não se acanham de reduzir a vontade das urnas a algo secundário, de importância relativa.

É preciso evitar que essa anomalia se reproduza por aqui.

Quanto ao presidente, recomenda-se que se esforce para alcançar um mínimo de nobreza. Muitos não dão importância à falta desse item no metabolismo de Bolsonaro. Mas sempre haverá quem ache que desejar para adversários políticos a injustiça que não gostaria de ver apontada para a própria cabeça é péssima referência de caráter para qualquer homem público.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.