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Presidente da Alerj: "Querem criminalizar a linha sucessória de Witzel"

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ceciliano (PT) - PAULO CARNEIRO/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ceciliano (PT) Imagem: PAULO CARNEIRO/AM PRESS & IMAGES/ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

29/08/2020 04h04

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, deputado André Ceciliano (PT), foi citado na delação de Edmar Santos, ex-secretário estadual de Saúde, como um dos protagonistas do esquema de desvio de dinheiro público. Santos contou ao Ministério Público Federal que sobras da Alerj eram transferidas aos cofres do estado sob pretexto de financiar as secretarias municipais de saúde.

"Tenho total tranquilidade de que não houve nada disso", afirma Ceciliano, que ontem foi alvo de busca e apreensão em sua casa e nos gabinetes na assembleia. "Estão querendo contaminar a linha sucessória do governador".

Wilson Witzel foi tirado do cargo de governador pelo STJ e o vice, Claudio Castro, assumiu em seu lugar. Caso haja o afastamento de Castro, também investigado pelo Ministério Público Federal, Ceciliano assumiria o comando do Executivo estadual.

"Você acha que vão querer dar de bandeja esse estado para um político do PT governar?", questiona.

Segundo Edmar Santos, o presidente da Alerj organizou reunião em seu gabinete com ele, Claudio Castro, deputados Rodrigo Bacellar (Solidariedade) e Márcio Canella (MDB) e secretário André Moura. O objetivo seria fazer acordo sobre a distribuição do dinheiro. Ceciliano nega.

Sobre a opinião pública fluminense, que, abalada por escândalos de corrupção no estado, já passa automaticamente a enxergar qualquer político investigado como culpado, ele cita o compositor Lupicinio Rodrigues: "Primeiro é preciso julgar pra depois condenar":

UOL - O que tem a dizer da acusação de ter repassado sobras da Alerj ao governo estadual, para uso no Fundo de Saúde de alguns municípios indicados pelo sr.?

André Ceciliano - Em 2019, o estado ainda vinha com problema de caixa, com risco de não pagar décimo-terceiro, folha, e a Assembleia Legislativa economizou R$ 421 milhões, que foram devolvidos ao Tesouro deo estado. Em nenhum momento devolvemos esse dinheiro com o compromisso de ser usado na Saúde, como disseram.

Foi para contratar 3 mil policiais militares, papiloscopistas e oficiais de cartório. Também para cumprir o compromisso com os cedidos da saúde e da educação, da PM, da Polícia Civil, que a Alerj nunca pagou. Até então, a Casa nunca tinha restituído recursos.

Em 2020, quando chegou a pandemia, entre março e abril, nós nos disponibilizamos a pagar R$ 100 milhões, para que o estado pudesse repassar R$ 1 milhão para cada município.

Segundo a delação de Edmar Santos, o sr. escolhia quais municípios deveriam ser privilegiados com os recursos.

Nunca tratei isso com ninguém. O que orientei o Claudio (Castro) foi que ele não desse dinheiro para os municípios que já têm recursos. Destinamos R$ 1 milhão para Paracambi, por exemplo, onde eu fui prefeito e o prefeito atual é adversário nosso.

Os recursos foram para fazer um centro de triagem para o paciente com suspeita de coronavírus não ter que ir ao hospital, onde pode contaminar todo mundo.

Falam de alguns municípios. Campos, por exemplo, onde repassamos recursos para um hospital filantrópico, que estava na eminência de fechar e com o salário atrasado. Pode procurar o pessoal da cidade para saber se é verdade ou não.

Deputado tem que pedir dinheiro para o seu lugar, ou então vamos criminalizar as emendas individuais dos 513 deputados federais e dos 81 senadores.

Se não pode destinar dinheiro para o seu reduto, tem que ir para casa.

Não tem nada disso do que está falando.

Se não tem nada, por qual motivo estariam fazendo essas acusações contra o sr.?

Na minha opinião, querem contaminar a cadeia sucessória do Witzel. Se tiver algum problema com o Claudio (Castro), e tomara que não tenha, porque iriam dar um estado para o PT governar?

E logo o estado do presidente da República?

Mas não tenho nenhum problema de responder a qualquer acusação.

O delator disse que esse acordo foi selado no seu gabinete, onde estavam o sr., ele, Claudio Castro, os deputados Rodrigo Bacellar (Solidariedade) e Márcio Canella (MDB) e secretário André Moura.

Duzentas vezes ele foi no meu gabinete. Nunca com o Claudio, Moura, Bacelar e Canela. Nunca. É fácil de checar. A única vez que ele pode ter estado no mesmo lugar que eu, com essas pessoas, foi em março, em uma cerimônia no jardim de inverno.

No mais, eu essas pessoas nunca estivemos juntos ao mesmo tempo.

Como o sr. foi informado da busca e apreensão?


Ás 6h40, fiquei sabendo que eles queriam entrar no meu gabinete, no prédio da Rua da Alfândega (Centro do Rio). Pedi ao pessoal da segurança para franquear a entrada. Mais 20 minutos e vieram na minha casa na Barra. Abri tudo.

Fiquei sabendo que não tinham mandado para entrar no Palácio Tirandentes, então liguei daqui e pedi para que houvesse liberação para eles. Peguei um papel em branco, assinei e autorizei. Em nenhum momento fizemos nada para prejudicar a investigação.Pelo contrário.

O Rio é um estado traumatizado com os recenes casos de Sérgio Cabral, Pezão, Picciani e Paulo Mello. Como se sente agora no papel de investigado?

Vou responder com um verso do poeta Lupicínio Rodrigues: "Primeiro é preciso julgar para depois condenar". Eles querem condenar antes do julgamento. Eu estou tranquilo. Não sou vestal, não sou melhor que ninguém, mas isso que está aí é zero possibilidade de qualquer envolvimento.

No meio disso tudo, o STF decidiu que a Alerj pode dar prosseguimento no processo que pode resultar no impeachment de Witzel pela via do Legislativo. O que vai acontecer agora?

Esse será o primeiro processo de impeachment estadual que vai chegar ao fim, desde 1950. Nunca ninguém cassou um governador no Brasil desde então. Retomo prazo a partir da terça-feira. Tudo o que a gente fez está dentro da lei.

Nossa preocupação com a decisão de Toffoli era que os advogados iriam judicailizar o processo. Mas temos a tranquilidade e a certeza de que estamos no caminho certo.

O que vai ser no final, depende da defesa do governador e depende do plenário. Não dá para antecipar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.