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Ao falar em tolerância e soberania, discurso de Bolsonaro foi incoerente

Presidente Jair Bolsonaro - Reprodução de vídeo
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

08/09/2020 04h00

Depois de mais de três meses, o presidente Jair Bolsonaro encarou novamente o desafio de fazer um pronunciamento em rádio e TV. Com ele, voltaram os panelaços. Enquanto as colheres agrediam o metal das caçarolas em várias janelas do país, Bolsonaro lia um texto ufanista a pretexto de homenagear a Independência do Brasil.

A marca do discurso presidencial foi a incoerência. Na fala curta, de três minutos, o presidente elogiou qualidades que na prática combate e exaltou sentimentos que na sua rotina costuma repudiar.

Para começar, lembrou o gesto mítico de Dom Pedro I, que às margens do rio Ipiranga teria gritado, segundo os cronistas de 1822, a célebre frase "Independência ou morte!". Na interpretação do presidente, o "Brasil dizia ao mundo que nunca mais aceitaria ser submisso a qualquer outra nação".

Talvez fosse bom que se lembrasse disso a cada contato com presidente Donald Trump ou qualquer outra autoridade americana. É justamente a submissão a marca da relação do governo brasileiro com os Estados Unidos.

A ponto de, no encontro do Fórum Econômico Mundial, Bolsonaro ter feito convite ao ex-vice-presidente americano Al Gore (que incrivelmente ele parecia desconhecer) para uma parceria na exploração da floresta amazônica. "Gostaria muito de explorá-la junto com os Estados Unidos", sugeriu Bolsonaro, diante de um Gore atordoado, provavelmente por testemunhar surpreendente demonstração de desapreço à soberania por parte de um chefe de Estado.

Mais à frente em seu discurso, o presidente disse que o Brasil "desenvolveu o senso de tolerância", algo que ele próprio não exercita diante dos políticos e organizações da sociedade civil que o contrariam.

Lembrou da Segunda Guerra Mundial, quando as Forças Expedicionárias foram à Europa para derrrotar o nazismo e o fascismo, mas parece ter esquecido que ele próprio sugeriu há dois meses classificar os grupos antifascistas brasileiros como terroristas (copiando seu ídolo Trump). Foi também o seu governo que elaborou um dossiê reservado sobre 579 policiais antifascistas.

Ao lembrar a década de 60, criou a verdade imaginária segundo a qual "milhões de brasileiros" foram às ruas contra a "sombra do comunismo". Na verdade, a maior das várias Marchas da Família com Deus pela Liberdade foi realizada em abril de 1964, no Rio de Janeiro, e teve estimativa benevolente de um milhão de participantes. As anteriores foram bem menores.

O presidente disse que as manifestações tinham o objetivo de preservar as instituições democráticas. O que se viu pouco mais de um mês depois da marcha no Rio foi o contrário disso: instaurou-se um regime que fechou o Congresso; perseguiu, torturou e matou adversários e censurou a imprensa.

Essas incoerências não importam a Bolsonaro e aos bolsonaristas. A eles basta criar a sua versão dos fatos, por mais descolada da realidade que possa parecer, e seguir em frente como se estivesse tudo bem.

Tanto é assim que, justamente no 7 de setembro desse ano trágico, Bolsonaro não dedicou uma linha sequer de seu pronunciamento às vítimas da pandemia que matou 126 mil pessoas no Brasil. Pouco antes do vídeo ir ao ar, foi ao encontro da aglomeração em Brasília, sem usar máscara, apesar de ter contato com várias pessoas, inclusive crianças. Para Bolsonaro parece estar tudo bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.