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Chico Alves

Bolsonaro não governa, quer apenas amansar o STF e conseguir a reeleição

Presidente Jair Bolsonaro em Brasília - Reuters
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília Imagem: Reuters
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

07/10/2020 15h09

Há muitos problemas graves a serem resolvidos no país: a pandemia continua fazendo vítimas, a devastação da Amazônia e do Pantanal bate recordes e a crise econômica ainda espera por solução.

Nada disso, porém, é prioridade para o presidente Jair Bolsonaro. O governo que ele dirige não apresentou plano para combater o coronavirus, a negligência de seu Ministério do Meio Ambiente potencializa a destruição do patrimônio natural brasileiro e não se sabe ainda qual linha Bolsonaro quer implantar na economia.

A cabeça do presidente está em outra dimensão. Nas últimas semanas, sua pauta praticamente se resume a dois temas.

A escolha do substituto de Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal é o que mais tem tomado seu tempo. "Esse assunto é crucial para mim", disse Bolsonaro, em conversa travada há cinco dias com seguidores, no cercadinho do Alvorada, para justificar a escolha de Kassio Nunes Marques.

Entre as várias encrencas de interesse de Bolsonaro que serão decididas pelo STF, as mais cruciais são hoje as investigações sobre o gabinete do ódio e sobre as manifestações antidemocráticas, que apontam para os seus filhos Eduardo e Carlos. Em algum tempo, imagina-se, estará nas mãos do Supremo também o caso da rachadinha de Flávio Bolsonaro. O próprio presidente pode se enrolar na história se não explicar direito o depósito de Queiroz na conta da primeira-dama.

Ou seja: o interesse é totalmente pessoal.

A outra pauta prioritária do presidente é a reeleição. Por conta disso, sob pressão do Centrão, o chefão do Planalto deu a Paulo Guedes a tarefa de se virar em uma fórmula para criar o Renda Cidadã, um benefício de alto potencial eleitoral. O mercado espreita esses movimentos com preocupação, pelo perigo que representam para o teto de gastos.

Por conta dos seus interesses principais, Bolsonaro virou melhor amigo dos caciques do Centrão e anda aos abraços com os ministros do STF, mesmo contra sua base de apoio original.

Que o presidente tenha deixado de lado os bolsonaristas fanáticos, é uma boa notícia. O problema é que isso aconteceu apenas por necessidades familiares. Economia, meio ambiente e saúde são algumas das áreas que carecem de ação urgente do governo, para o bem da população.

Nessa trajetória de Bolsonaro entre os malucos olavistas e os medalhões do Centrão e do STF, os brasileiros continuam à espera do estadista que se preocupe realmente com o país.