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Chico Alves

Manual de conduta para homens honrados, segundo Hamilton Mourão

Carlos Alberto Brilhante Ustra - Sérgio Lima/Folhapress
Carlos Alberto Brilhante Ustra Imagem: Sérgio Lima/Folhapress
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

08/10/2020 17h09

O homem honrado entrou no aposento para acompanhar de perto o trabalho de seus comandados. Sério, como de costume, ordenou que o prisioneiro subisse em duas latas de alumínio. Em seguida, indicou aos subordinados que derramassem sobre o corpo do rapaz subjugado uma mistura de água e sal. Fios desencapados foram enrolados no corpo do preso.

Foi então que o homem honrado ligou a eletricidade.

A partir dali, o prisioneiro passaria por mais uma extensa sessão de choques e pauladas nas costas, entre várias que tinha sofrido desde a detenção. Apesar dos gritos de dor que tomavam conta do cômodo, o comandante daquela sessão de tortura volta e meia sorria e usava uma vara de cipó como chicote.

O prisioneiro que relatou as sevícias (apenas uma entre centenas de vítimas) é Gilberto Natalini, preso na década de 1970 por se manifestar contra a Ditadura Militar. Ele nunca participou da luta armada.

Natalini hoje é vereador do PV, em São Paulo, e relembrou a tortura ao jornalista Joelmir Tavares, da Folha de S. Paulo, em agosto do ano passado.

O comandante das sessões cheias de requintes de crueldade, ocorridas há 50 anos, era o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, que morreu em 2015, depois que sua culpa por tortura foi reconhecida pela Justiça.

Sob qualquer avaliação civilizada, o responsável por agredir alguém dessa forma seria visto como um covarde, um monstro ou um psicopata.

No entanto, o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, considera Brilhante Ustra "um homem de honra", segundo declarou em entrevista à TV alemã Deutsche Welle,

Mais: Mourão disse que Brilhante Ustra respeitava os direitos humanos... dos seus subordinados. Nesse ponto, o vice-presidente destila ironia sobre as cicatrizes daqueles que foram torturados pelo bárbaro que tinha a patente de coronel.

O autor da excelente entrevista, o veterano jornalista Tim Sebastian, observou muito bem que tanto Mourão quanto o presidente Jair Bolsonaro condenam a tortura, mas não os torturadores. Ou seja, a civilidade é um jogo de cena, sem ações concretas na vida real.

O vice-presidente desfiou ao entrevistador da Deutsche Welle outras verdades imaginárias, como a que o Brasil se saiu muito bem no combate ao coronavírus, que está fazendo o possível quanto ao desmatamento da Amazônia e por aí vai.

O elogio a Ustra, porém, é o mais chocante, por envolver uma questão de princípios.

Se alguém quiser aprender sobre a conduta de um homem honrado, aí vai um pouco mais do depoimento de Gilberto Natalini à Folha, detalhando as práticas do personagem a quem Hamilton Mourão atribuiu essa qualidade:

"Choque nos ouvidos era todo dia. Sou deficiente nos meus ouvidos, de choque elétrico que o Ustra me deu. Fiquei com sequelas permanentes. Perdi 60% da capacidade de ouvir na orelha direita e 40% na esquerda.

Você não faz ideia do que é o choque no ouvido. Quando eles ligam a corrente elétrica, você grita. E, quando você grita, surge uma faísca que pula de um lado da boca para o outro. Isso queima toda a sua mucosa bucal. Descasca. Fica em carne viva.

É impossível você não gritar, porque não consegue suportar. Todo mundo grita na dor".

Além de Mourão, outros militares e civis que idolatram Ustra deveriam saber que alguém capaz desse tipo de violência não passa de um covarde, uma pessoa pusilânime.

O vice-presidente e os que pensam como ele têm que revisar urgentemente o seu conceito de honradez.