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Chico Alves

A semana em que Bolsonaro esculhambou de vez a Presidência da República

Bolsonaro compartilhou imagem ao lado do cachorro nas redes sociais - Reprodução/Instagram
Bolsonaro compartilhou imagem ao lado do cachorro nas redes sociais Imagem: Reprodução/Instagram
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

25/10/2020 12h31

Desde que estreou como presidente da República, Jair Bolsonaro tem se dedicado com afinco a bagunçar a institucionalidade do cargo. Xinga adversários, humilha aliados, bate boca com chefes de Estado, solta palavrões em discursos, dissemina fake news, nega a alarmante devastação ambiental, recomenda à população remédios inócuos contra o coronavírus e por aí vai.

Mesmo para o padrão de balbúrdia mantido desde janeiro de 2019, porém, Bolsonaro bateu o próprio recorde na última semana. Superou todas as expectativas negativas.

O ato mais ruidoso foi cancelar o acordo que seu ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, tinha firmado no dia anterior para compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac, que o presidente insiste em chamar de vacina chinesa. Deixou claro, dessa forma, que não dá a mínima para a saúde dos brasileiros e coloca a disputa pré-pré-eleitoral com João Doria à frente de tudo.

Depois de desautorizar o ministro, Bolsonaro deu ainda a oportunidade de Pazuello submeter-se alegremente a nova humilhação, gravando um vídeo em que o general de quatro estrelas da ativa diz para as câmeras: "Senhores, é simples assim: um manda e o outro obedece". O clima de "brothers" entre os dois é constrangedor.

Nos últimos dias, o nível de esculhambação continuou subindo.

Matéria do jornalista Guilherme Amado, publicada sexta-feira na revista Época, revelou episódio gravíssimo. Há dois meses, o presidente recebeu em seu gabinete as advogadas de defesa do filho, Flávio Bolsonaro, no caso da rachadinha da Assembleia Legislativa do Rio, juntamente com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e o diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem.

Bolsonaro queria que Heleno e Ramagem ajudassem a confirmar a tese das advogadas de que houve manipulação de dados na Receita Federal contra Flávio. Deu aos dois a missão de conseguir a comprovação da suspeita.

Ambos disseram ter dado como retorno que o assunto não estava entre as atribuições dos dois órgãos.

Mesmo que Heleno e Ramagem realmente tenham dado essa resposta, resta a constatação alarmante de que o presidente da República do Brasil tentou colocar o aparato de Estado a serviço da defesa do filho, acusado de corrupção no esquema de rachadinha.

Bovinamente, as instituições que dizem estar funcionando, se mantiveram inertes diante do fato. Nem Judiciário ou Legislativo tiveram atitude à altura do absurdo cometido por Bolsonaro. A tal sociedade civil também seguiu silenciosa. Sequer nas redes sociais, ambiente dado a polêmicas, a gambiarra presidencial teve a repercussão devida.

Sem encontrar resistência, o presidente continuou avançando na desmoralização de seu cargo.

Deixando de lado a impessoalidade que se espera do principal servidor público do país, Bolsonaro não se constrangeu ao gravar vídeo de propaganda para um curso preparatório para concursos da Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.

"É difícil, e nós acreditamos em você. Estamos juntos. E o ano que vem vou dar posse pra todos vocês. Valeu", diz o dublê de garoto-propaganda e presidente da República, sorrindo para a câmera.

O curso que ele promove, aliás, é o mesmo em que Eduardo Bolsonaro gravou vídeo ameaçando fechar o Supremo Tribunal Federal com a ajuda de um cabo e um soldado.

Espera-se a reação das tais instituições a essa bizarrice. Sem muitas esperanças, é verdade.

Por fim, como cereja do bolo, o presidente postou ontem em seu Instagram uma foto em que abraça um cachorro , junto à seguinte frase: "Vacina obrigatória só no Faísca".

A brincadeirinha serviu para mostrar que Bolsonaro se preocupa mais com a saúde de seu cão do que com a saúde da população brasileira, já que se coloca contra a obrigatoriedade da imunização contra o coronavírus. Aliás, com 160 mil mortos por causa da pandemia, que outro governante acharia que é hora de fazer gracejo com a doença?

Foi assim, com sorriso estampado no rosto, que o presidente chegou ao fim dessa semana triste.

A tristeza aumenta por saber que tamanha esculhambação não foi suficiente para que qualquer autoridade, personalidade ou grupo tenha conseguido servir de obstáculo à degradação institucional do país.

Na semana que começa, certamente a bandalheira terá continuidade.

Se sociedade civil, Legislativo e Judiciário estão paralisados, só resta esperar que ao menos algum psiquiatra se anime a tomar as medidas cabíveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.