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Chico Alves

A crescente popularidade de Bolsonaro e a lição do árbitro de futebol

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido)  - Marcos Corrêa/PR
Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) Imagem: Marcos Corrêa/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

27/10/2020 15h38

O árbitro de futebol carioca José Roberto Wright foi o principal nome do apito no Brasil nas décadas de 1980 e 1990. Ficou conhecido por avaliar jogadas difíceis com agilidade, o que o levou a ser considerado em certa época o melhor do mundo. Wright, porém, é também protagonista de arbitragens bastante contestadas, como a do jogo entre Atlético MG e Flamengo, pela Libertadores de 1981. Naquela partida, expulsou quatro jogadores do time mineiro.

Corre nos meios esportivos uma história interessante sobre Wright que talvez ajude a explicar a crescente popularidade do principal político brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro.

Um admirador do árbitro contou a ele que o viu errar algumas vezes nos jogos, mas que em nenhum momento os erros o fizeram perder o pulso. O fã perguntou qual o segredo para conseguir esse resultado.

Wright teria, então, dado a receita: "Quando errar, erre com convicção".

Não se sabe se a história é real (Wright está aí para confirmar ou negar), mas mesmo se for fictícia tem uma lição que poderia ser também ensinada por Bolsonaro. Afinal, sua gestão é uma coleção de equívocos gravíssimos e, apesar disso, a popularidade do presidente só faz crescer.

A última pesquisa CNT/MDA mostrou que o percentual de brasileiros que apoiam desempenho pessoal do presidente Bolsonaro subiu de 39,2% para 52%. A aprovação do governo também está em um bom patamar: 41%.

Como explicar tamanha aceitação do homem que duvidou da gravidade da pandemia de coronavírus, fez cruzada contra o isolamento social, sugeriu o uso de medicamento não aprovado pelos cientistas, duvida da vacina, diz que não existem queimadas na Amazônia, assiste inerte ao aumento de preços dos alimentos e tenta usar o aparelho governamental a favor da defesa do filho acusado de corrupção?

Análises confiáveis mostram que a população que recebe o auxílio-emergencial passou a ver Bolsonaro com bons olhos e isso fez com que ficasse mais popular. Faz todo o sentido.

No entanto, existe algo na forma impávida com que Bolsonaro pratica bobagens que escapa ao entendimento dos pesquisadores. O presidente se orgulha de fazer o que dá na telha. Se alguém tem a coragem de soprar em seu ouvido que cometeu uma barbeiragem, ele parece radicalizar o erro.

Impossível que alguém não lhe tenha dito que absurdo estava cometendo ao servir de garoto-propaganda a um curso preparatório para concursos públicos ou ao abraçar um cão para fazer brincadeirinha com a vacina, em plena pandemia que já matou quase 160 mil pessoas.

Mas o semblante de satisfação que exibiu nesses dois casos denuncia convicção ao fazer a escolha equivocada.

Quando errava em campo, Wright o fazia involuntariamente (talvez os atleticanos acreditem que não). Bolsonaro erra tanto propositalmente quanto por descuido. E se mantém convicto ao praticar a burrada.

Assim como o árbitro conseguia manter a autoridade com os jogadores, mesmo depois de uma marcação discutível, o presidente faz crescer sua popularidade mantendo-se sorridente e de nariz em pé em direção ao abismo.

Talvez esse desprendimento encante uma parte da população.

Não há dúvida: se alguém sabe errar com convicção, esse alguém se chama Jair Bolsonaro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.