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Chico Alves

Ao negar racismo no Brasil, Mourão lembra que temos governo de Bolsonaros

Vice-presidente Hamilton Mourão em Brasília -
Vice-presidente Hamilton Mourão em Brasília
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

20/11/2020 15h41

O vice-presidente do Brasil, general da reserva Hamilton Mourão, demoliu hoje a tese acreditada por muitos de que o presidente Jair Bolsonaro é o grande problema do governo. Mourão, com aquela serenidade de quem acha que entende de todos os assuntos, fez hoje comentário absurdo sobre o assassinato do cidadão negro João Alberto em um supermercado gaúcho.

Após atribuir o episódio a suposto despreparo dos seguranças brancos, o general disparou mais uma pérola do negacionismo. "Para mim, no Brasil não existe racismo", opinou. "Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil". Para ele, tudo se deve à desigualdade.

O vice-presidente do Brasil escolheu justamente o Dia da Consciência Negra, um dia após o assassinato brutal de mais um negro, para fazer essa declaração infeliz.

Desconsidera todas as estatísticas que comprovam que os negros do país têm oportunidade infinitamente menores e sofrem violências e dificuldades absurdamente maiores que os brancos. Exibe desconhecimento monumental da História brasileira.

O posicionamento de Mourão ajuda a desconstruir a ideia de que ele seja um homem sensato, uma espécie de grilo falante de Bolsonaro.

Quem acredita nessa falácia, esquece da entrevista em que o vice-presidente classificou o torturador Brilhante Ustra como homem honrado.

Recomenda-se a essas almas de boa-fé que busquem conhecer o chamado "Plano Mourão " para a Amazônia. À frente do Conselho governamental para a região, entidade de onde excluiu desde o início os governadores locais, o vice-presidente produziu um documento antiquado, priorizando a defesa militar e negligenciando as pesquisas ambientais, como se estivéssemos na Guerra Fria de cinco décadas atrás. Quer limitar o trabalho das ONGs. É como se fosse um Ricardo Salles de farda.

O problema do governo, que assume postura ultrajante no Dia da Consciência Negra, não é somente Bolsonaro ou Mourão, mas sim todo o projeto militarista incentivado pelo ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas. Essa anomalia gerou o monstro que leva hoje o Brasil ao fracasso reconhecido interna e externamente.

Com justiça, essa derrocada tem sido associada às Forças Armadas, avalistas do atual governo. Porém, entre os militares, tanto da reserva quanto da ativa, é difícil encontrar quem tenha facilidade de reconhecer os erros, por mais graves que sejam. A maior parte deles prefere repetir a cantilena de que os fardados não estão na política, como se alguém acreditasse nisso.

Sendo assim, continuaremos a conviver com o negacionismo do presidente e do vice-presidente exibido em rede nacional por pelo menos mais dois anos. Um é o Bolsonaro totalmente bronco e outro é o Bolsonaro um pouco mais polido. Não faz muita diferença: o governo é inteiramente composto por Bolsonaros.