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Chico Alves

Maia aponta realidade paralela de Bolsonaro, onde mentira é arma política

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

18/12/2020 12h22

Não é usual que um presidente seja tantas vezes chamado de mentiroso quanto Jair Bolsonaro o foi nesses quase dois anos de mandato. A respeitabilidade do cargo, a etiqueta institucional, toda essa aura fez com que políticos e imprensa tivessem certo pudor de usar o adjetivo.

Porém, foram tantas as invencionices de Bolsonaro que o Brasil se acostumou a ver o homem mais poderoso da República tratado da forma como o presidente da Câmara dos Deputados fez hoje. Rodrigo Maia disse que o ocupante do Palácio do Planalto é mentiroso.

Certamente haverá reação nas redes sociais dos bolsonaristas robôs e de carne e osso, também os militares que o apoiam se mostrarão escandalizados, políticos aliados reagirão.

Mas, para além do jogo de cena, como qualificar certas fábulas criadas por Bolsonaro, senão pelo vocábulo que o dicionário recomenda: mentira?

No caso de agora, o presidente tenta justificar a seus eleitores o não cumprimento da promessa de dar o 13º salário do Bolsa Família acusando o presidente da Câmara de não ter pautado a votação da Medida Provisória sobre o assunto.

Tenta tirar de suas costas a responsabilidade para jogá-la no colo do Legislativo. Omite que o próprio governo articulou na Câmara que a MP não fosse votada, para evitar o custo de R$ 8 bilhões aos cofres públicos.

De que forma os apoiadores de Bolsonaro classificariam essa patranha?

Essa é apenas a última de uma vasta coleção de verdades imaginárias do presidente.

Desde que tomou posse, disse que houve fraude na eleição de 2018, afirmou que a esquerda quer descriminalizar a pedofilia, insistiu que não fez qualquer comentário sobre a Polícia Federal na famosa reunião ministerial de abril, chutou que incêndios na Amazônia foram causados por índios e caboclos, teimou que nunca tinha se referido à pandemia de coronavírus como "gripezinha", espalhou que máscaras anti-covid podem ser prejudiciais à saúde por reter CO2.

Todos os itens dessa pequena amostra de invenções foram desmentidos. Isso para não falar das fake news divulgadas na campanha.

Na relação com o Congresso, usa a tática de divulgar ao público iniciativas de boa aceitação enquanto nos bastidores trabalha para que sejam derrubadas. Quando é cobrado por correligionários, o presidente refugia-se em sua realidade paralela e responsabiliza deputados e senadores.

Esse jogo duplo é, aliás, uma armadilha em que até mesmo o experimentado Centrão pode ter prejuízos.

Agora, o presidente da Câmara responde ao ataque de Bolsonaro recordando o que a imprensa já tinha noticiado: o próprio governo trabalhou para derrubar o 13º salário do Bolsa Família em 2020.

Como reação à verborragia irresponsável de Bolsonaro, Maia pautou o assunto. É um xeque-mate.

A base governamental na Câmara ficou com o abacaxi. Tem agora a obrigação de trabalhar pela aprovação do projeto. Se não o fizer, vai arcar com o ônus de decisão tão impopular.

Caso não apoie a validação do benefício, o presidente será mais uma vez tratado pelo adjetivo com que nenhum ocupante do Palácio do Planalto deveria se acostumar: mentiroso.