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Chico Alves

Erundina: "Líderes do mundo artístico pressionam para eu abandonar disputa"

 Luiza Erundina  - Jorge Araujo/Folhapress
Luiza Erundina Imagem: Jorge Araujo/Folhapress
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

22/01/2021 17h49

Causou uma grande discussão a postagem feita hoje no Twitter pela deputada Luiza Erundina (PSOL-SP) em que comenta a suposta tentativa de alguns correligionários de apoiar a candidatura de Baleia Rossi (MDB-SP) à presidência da Câmara. Acontece que a candidatura de Erundina ao cargo já foi lançada pelo partido. A deputada se sentiu desrespeitada diante dessa possibilidade.

"É lamentável que o PSOL negocie suas convicções e compromissos políticos históricos ao aderir ao fisiologismo e à barganha por cargos na Mesa da Câmara", escreveu Erundina.

Ela comparou a suposta prática de alguns colegas de legenda aos métodos de partidos da direita.

A palavra "fisiologismo" causou grande incômodo e muitos parlamentares psolistas criticaram Erundina pela postagem.

Nessa entrevista à coluna, ela reafirma sua candidatura, diz que concorre porque é disciplinada e obedece à decisão do partido e revela que tem sofrido pressões até de lideranças do mundo artístico para abandonar a disputa, que, segundo alguns, aumentaria as chances de vitória de Arthur Lira (PP-AL) no primeiro turno.

"Afirmei a quem me pressionou pessoalmente ou através de mensagens, me responsabilizando pelo resultado, que acho que é superestimar minha presença nesse processo", diz a deputada.

UOL: Como chegou à sra. a informação de que o PSOL poderia apoiar a candidatura de Baleia Rossi?

Luiza Erundina: Eu vi pela imprensa, em longa matéria da CNN, dando conta que o PSOL estaria articulando para retirar a candidatura e apoiar Baleia Rossi. Minha reação foi de dizer que não sou candidata própria, mas do partido.

A bancada se dividiu em duas partes. A Executiva Nacional, por maioria folgada, por margem muito grande de votos, decidiu pela manutenção da nossa posição.

Havia cinco integrantes da nossa bancada que já vinham conversando com as outras forças de oposição, que já estavam participando de reuniões com Rodrigo Maia. Mas com a decisão da Executiva, que é irrevogável, todos são obrigados a seguir a diretriz do partido, que no caso é manter a candidatura própria no primeiro turno.

Eu não sou candidata de mim mesmo. Já fui candidata tantas vezes, nunca reivindiquei candidatura nenhuma, em nenhum partido em que estive. Eu preciso de um mandato, quando o povo me confere, para ser instrumento a serviço dos interesses populares. Minha trajetória política demonstra à exaustão essa minha atitude. Eu não faço concessões em relação às minhas convicções.

Como esse movimento em direção a Baleia Rossi é percebido pela sra.?

Tenho sofrido pressão muito forte nesses últimos dias de lideranças do mundo artístico, com cobranças como se eu estivesse atrapalhando ou ajudando a vitória do candidato bolsonarista.

Houve pressão pessoal, de gente ligando diretamente para mim. Afirmei a quem me pressionou pessoalmente ou através de mensagens, me responsabilizando pelo resultado, que acho que é superestimar minha presença nesse processo.

Além disso, eu pergunto: por que eles não cobram das bases do Baleia? O MDB, o DEM, que são responsáveis por essa candidatura e estão divididos? Teve gente ali que já declarou voto em Lira. Então a responsabilidade é só de Luiza Erundina, individualmente?

Eu nunca fiz política individualmente. Não acredito na política como ação individual. Nunca decidi nada em meu próprio interesse. Só ocupo mandato quando sou demandada, quando cumpro tarefa partidária. Aí sim. Eu sou disciplinada. E vou às últimas consequências. A menos que o PSOL decida rever a sua posição inicial.

Quem são essas lideranças culturais que fazem pressão?

Não posso dizer nomes, infelizmente.

Antes de fazer o tuíte que causou tanta discussão, a sra. falou com o Juliano Medeiros, presidente do partido, para saber se a informação procede?

Eu confesso que fiquei muito irritada, eu fiquei me sentindo tratada de forma desrespeitosa e atingida pessoalmente. Nesses momentos você não pensa "vou falar com sicrano ou beltrano".

Claro que a minha posição é no sentido de não atribuir aquela denúncia por aquela matéria ao partido. Absolutamente. Mas não podia deixar de reagir. Eu sou nordestina. Certas respostas só se dão na hora, não se deixa para depois.

Eu sou muito disciplinada partidariamente. Vou às últimas consequências nas responsabilidades e tarefas que eu tenho. Nunca reivindiquei candidatura nenhuma, mas espero respeito.

É como se eu quisesse brincar de ser candidata. Isso não existe. É uma tarefa que eu gostaria de não aceitar. Depois de uma campanha pesada para a prefeitura de SP, sou do grupo de risco da pandemia, estava me preservando esses meses todos.

Talvez eu pudesse ter dito de outra forma, mas aquilo foi fruto de um impacto muito forte, dentro de uma situação muito injusta comigo. O que diz a matéria é que o partido iria manter minha candidatura, como me fizesse um favor, mas seguiria no bloco de Baleia. Para sangrar até o final. Não preciso disso, já fui candidata muitas vezes.

Uma palavra que incomodou mais seus correligionários foi a palavra "fisiologismo".

Mas foi. Tem gente na bancada, que defendia exatamente a composição com esse bloco e estava negociando. Isso foi dito em reunião de bancada. Estavam negociando relatoria de bancada, presidência de comissão.

Isso foi inclusive comentado, sobre companheiros que estavam se reunindo com o presidente atual e essas outras forças, para definir as coisas. Deputados arguiram os companheiros que estavam conversando com Rodrigo Maia e com o bloco que estava lá se construindo.

Se eles têm convicções disso, tudo bem. Mas confrontar uma decisão partidária e desrespeitar quem assumiu essa decisão não é justo.

O presidente do PSOL veio a público dizer que sua candidatura está mantida. O que achou desse posicionamento?

Não tenho nada a resolver com o Juliano, meu presidente, que eu respeito muito. É excelente presidente, um companheiro de todas as horas. Minha relação com ele é de muita confiança, de respeito mútuo. Não tenho nenhum problema com ele nem com ninguém do partido. Não atribuo isso ao partido com um todo.

É tradição do PSOL ter candidatura própria com um programa, com unidade absoluta. Achar que eu morro de amores por ser candidata, não é verdade. Achar que eu me prestaria a isso é não me conhecer.