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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Votação do impeachment de Dilma mostrou um Brasil ignorado, diz sociólogo

Sessão da Câmara que autorizou o impeachment de Dilma Rousseff - Agência Brasil
Sessão da Câmara que autorizou o impeachment de Dilma Rousseff Imagem: Agência Brasil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

17/04/2021 04h00

Há momentos tão importantes na vida política de um país que só podem ser compreendidos anos depois. Esse é o caso da sessão da Câmara que no dia 17 de abril de 2016 autorizou a continuação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Na votação, transmitida ao vivo pela TV e pela internet para milhões de brasileiros, 367 deputados votaram a favor do impedimento de Dilma, enquanto 137 votaram contra.

As motivações apresentadas pelos parlamentares foram analisadas pelo sociólogo Reginaldo Prandi, da Universidade de São Paulo, que, juntamente com o colega João Luiz Carneiro, publicou o artigo "Em nome do pai - Justificativas do voto dos deputados federais evangélicos e não evangélicos na abertura do impeachment de Dilma Rousseff".

O "pai" que aparece no título do estudo se refere menos a Deus, tão citado naquela votação, e mais à representação de família, tradição e valores conservadores, em contraste com as ideias progressistas que dominavam a pauta política até então.

"O Brasil em sua maioria é um país de gente com mentalidade atrasada", define Prandi, nessa entrevista à coluna. "E foi essa mentalidade atrasada que derrubou a chefe de governo cujo partido e o presidente que a precedeu davam mostras que queriam dar igualdade às mulheres, aos negros, aos gays, pautas de esquerda".

Para o sociólogo, as justificativas dos deputados são a prova de que Dilma não foi retirada do poder por causa das alegadas pedaladas fiscais ou pela crise econômica. O verdadeiro motivo foi a reação de uma parcela de brasileiros, até então sem voz, a avanços na agenda de costumes.

"Naquela sessão, cinco anos atrás, tivemos mostras daquilo que se expandiu a ponto de se transformar na voz oficial do Brasil, o governo Bolsonaro", afirma Prandi.

UOL - Analisada cinco anos depois, o que significou aquela sessão da Câmara em que os deputados fizeram verdadeiras performances para a audiência de milhões de brasileiros que os assistia e que deu prosseguimento ao processo de impeachment de Dilma Rousseff?

Reginaldo Prandi - O artigo que escrevi tem o título "Em nome do pai", o que pode dar a impressão de que Dilma foi defenestrada em nome de Deus, ou seja, por motivos religiosos. Mas o que a pesquisa demonstra é que este "pai" não é necessariamente uma referência divina, mas representa a família tradicional, o costume tradicional, as normas de vida calcadas em uma moralidade retrógrada.

Era algo em contraposição a todo movimento de modernização que inclui o movimento pela autonomia das mulheres, a construção do conceito de gênero, a favor da diferença, especialmente a diferença gay, o movimento contra o racismo.

Tudo aquilo que demonstrava uma certa evolução na linha da modernidade e da nossa posição no mundo bastante avançada em termos de costume, de identidade, tudo isso foi colocado dentro da possibilidade do impeachment de Dilma.

Mas a atuação da bancada evangélica foi bastante destacada no impeachment.

Tínhamos ali 1/4 dos deputados que, enquanto evangélicos, assumiam essa postura atrasada. Com um pequeno grupo de católicos tradicionalistas, também muito apegado a esses costumes reacionários.

Mesmo assim, se somarmos católicos e evangélicos não temos ainda aquela expressão tão grande de votos necessários para derrubar a presidenta. A maior parcela da Casa, apesar de não se manifestar através de uma religião, são os brasileiros que estão voltados para o passado.

O que derrubou a Dilma não foi simplesmente a religião, mas uma mentalidade brasileira atrasada. Parte das igrejas evangélicas, não todas, pois existem algumas que são progressistas, quando se fez representar no cenário político, ganhou voz. Ao ganhar voz, trouxe a público essas aspirações de um Brasil atrasado.

O artigo mostra que o Brasil em sua maioria é um país de gente com mentalidade atrasada. E foi essa mentalidade atrasada que derrubou a chefe de governo cujo partido e o presidente que a precedeu davam mostras que queriam dar igualdade às mulheres, aos negros, aos gays, pautas de esquerda.

São, então, representantes da direita que não se sabia que era tão grande no Brasil?

Essa parcela atrasada assume valores que são de direita, mas não tinha como expressar isso antes. Isso é revertido quando surge a voz dos evangélicos legitimada em suas cadeiras políticas. Isso é um grande processo de transformação de trazer a público a posição de direita como decisiva na política brasileira, que se completa com a eleição de Bolsonaro, que vai se mostrar uma incógnita do ponto de vista da religião.

Você não sabe se Bolsonaro é evangélico, católico. Ele fica numa posição que é de direita e é retrógrada. Assim, completou-se esse processo. E esse Brasil que não tinha voz, o Brasil podre, o Brasil ruim, o Brasil detestável, que pode provocar até a autodestruição com a disseminação do negacionismo.

Naquela sessão, cinco anos atrás, tivemos mostras daquilo que se expandiu a ponto de se transformar na voz oficial do Brasil, o governo Bolsonaro.

Reginaldo Prandi - Divulgação - Divulgação
Sociólogo Reginaldo Prandi
Imagem: Divulgação

Qual mensagem esses que não tinham voz queriam passar?

Quando uma pessoa de direita falava, era minoritária, não tinha muita expressão, era muita abafada. Ali, naquela sessão, eles falam pela família, em nome de seus eleitores, de sua região, de seu pequeno recorte eleitoral, às vezes falam em nome do partido, genericamente em nome do Brasil. Quando são religiosos, falam em nome da sua religião e em nome de Deus.

Mas o que pesa mesmo é a ideia de que eles estão falando em nome de um país cujas mudanças eles temem. Não tem economia no discurso, não tem planejamento social, outras instituições, não se fala praticamente nada que não tenha a ver com esse Brasil arcaico. Aquela cidade do interior, a família, o avô, as tradições, os costumes antigos, aquilo onde eles se sentem seguros porque não tem qualquer mudança quanto a referências que herdaram dos pais e avós.

Nas justificativas de cada voto, a pauta de costumes superou inclusive alegações como a de corrupção, que teria sido a causa do impeachment?

A corrupção deixou de ser importante, a tal pedalada fiscal era uma bobagem, uma prática comum, que todo mudo fazia de conta que não via. Mas foi esse motivo que usaram para começar o processo de impeachment. Mas eles não votam por causa disso.

Como os progressistas não perceberam a insatisfação dessa parcela da população?

Esse setor estava sociologicamente cego. Nós não enxergamos o Brasil, só enxergamos aquilo que favorecia a ideia de um Brasil que estava no caminho certo. Todo esse pessoal que não tinha fala, que não tinha discurso, que não tinha quem os ouvisse, ia ficando para trás.

Fizemos de conta que tudo ia bem, fomos excessivamente otimistas. Subestimamos a parte muda do Brasil, a parte pobre. Qual era a maior mostra de que algo não estava bem para essa parcela? Era mudar de religião, deixar de ser católico e virar evangélico.

Não havia diálogo com esse grupo, houve até um certo desprezo. Os evangélicos sempre foram menosprezados, os bobos, os idiotas. Havia um preconceito muito grande contra eles. Quando entram na política, o fazem para se defender na Constituinte de 88, porque tinham medo que a Igreja Católica reconquistasse todo privilégio que já tivera.

Eles têm medo que o Brasil vire um país de tolerância gay, um país com direitos femininos totais, em que as diferenças sejam aceitas. Eles foram sempre relegados a um papel minoritário. Só que a posição dos evangélicos representa também aqueles que não são da religião deles. O Brasil não soube se olhar.

O sr. acredita que essa visão religiosa vai continuar a fazer a política brasileira retroceder?

Sou otimista. Acho que esse pessoal que estava fora da política entra agora e se depara com a necessidade de entender o Brasil, vai se civilizando. Vai aprendendo, finalmente, começa a saber o que é ciência. Começa aprendendo o que é vacina. Todo mundo que eu conheço e que em algum momento disse que não ia se vacinar contra a covid-19 já foi vacinado.

Isso acontece porque vai tendo um contato com a realidade que o obriga a aprender. Ao aprender vai se dando conta de que há outras possibilidades.

Conheço muitas lideranças evangélicas que não pensam mais como pensavam no tempo do impeachment da Dilma. Ao chegar na política, passaram a entender o que é. Descobrem que é preciso aprender a governar, vão deixando a tradição de lado e se transformando em atores realmente capazes de governar.