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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Queiroga age solitário na pandemia. Bolsonaro tem outras prioridades

O Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga - WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga Imagem: WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

14/04/2021 09h49

Não há no Brasil solidão maior que a do ministro da Saúde. À frente da pasta que tem a responsabilidade de enfrentar a pandemia histórica, que já matou 358 mil pessoas, Marcelo Queiroga não pode contar com aquele que deveria ser o seu maior apoiador nessa tarefa árdua, o presidente da República.

De Jair Bolsonaro, que parece mais interessado em outros temas que em salvar vidas, o ministro não pode esperar sugestões sensatas. O governante que insiste em divulgar cloroquina como tratamento para a covid-19, que fez todo esforço para desacreditar as vacinas e cria fake news sobre o uso de máscaras não é exatamente o melhor conselheiro.

Bolsonaro não diz ao ministro o que deve fazer, mas faz questão de dizer o que não deve ser feito. Em hipótese nenhuma o presidente aceita lockdown, justamente o único recurso que poderia poupar milhares de vidas enquanto a imunização não chega para a maioria da população.

Dos vários assuntos que o ocupam mais que o combate à pandemia (liberação de armas, mudanças na Petrobras, articulações para blindar os filhos contra investigações incômodas, tentativas de intimidação aos ministros do Supremo, etc...), o presidente tem-se dedicado atualmente a tentar esvaziar a CPI da Covid, criada pelo Senado.

Chamado a comentar o imbróglio, o ministro da Saúde saiu pela tangente. "Estou muito mais preocupado com CTI do que CPI", disse Marcelo Queiroga.

Tem mesmo muito a se preocupar. Afinal, assumiu a pasta depois da trágica passagem do general da ativa Eduardo Pazuello pelo cargo. Enquanto as mortes se multiplicam, Queiroga corre atrás das vacinas que o governo não comprou quando deveria, precisa resolver a escassez de oxigênio e kits para intubação, é chamado a abrir novos leitos e está às voltas com o encalhe de milhões de testes de covid-19 que tiveram data de validade vencida, entre outros abacaxis.

Tudo tem que ser resolvido com urgência. O pouco tempo à frente da pasta e a herança maldita que recebeu de Pazuello não lhe servem de álibi. Queiroga sabia o tamanho da encrenca quando aceitou ser ministro.

Mas não deixa de ser assustador que o presidente da República dedique tão pouco tempo para estar a seu lado na maior crise sanitária da história do país.

Pior: quando o faz, Bolsonaro só atrapalha.

Pensando bem, talvez o ministro da Saúde até prefira a solidão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL