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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Falta da segunda dose de CoronaVac é a cereja do bolo ruim de Pazuello

25.fev.2021 -  O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante declaração à imprensa sobre a falta de leitos em UTI no país - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
25.fev.2021 - O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante declaração à imprensa sobre a falta de leitos em UTI no país Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

03/05/2021 16h04

Difícil dizer qual foi a maior barbeiragem do general da ativa Eduardo Pazuello em sua passagem desastrosa pelo Ministério da Saúde. Atraso de meses na compra de vacinas, apoio ao uso de remédios ineficazes contra a covid-19, não utilização de testes para detectar a doença, escassez de oxigênio e kits intubação? São muitas opções de trapalhadas.

Em meio às muitas demonstrações de imperícia administrativa de Pazuello, porém, uma teve consequências importantes que apareceram nos últimos dias.

A orientação para que os municípios utilizassem todas as doses que receberam da vacina CoronaVac para a primeira aplicação, sem precisar guardar a segunda, foi um dos atos mais irresponsáveis do ex-ministro. Como resultado, cidades de quinze estados tiveram que cancelar a segunda dose, por falta do medicamento.

Desde o início da produção de vacinas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz ficou claro que o envio de insumos importados que servem de matéria-prima para os imunizantes seria irregular, por causa da alta demanda.

A maior parte dos especialistas aconselhou que, apesar da pressão da população, estados e municípios separassem de cada remessa recebida as doses necessárias para usar na segunda rodada.

Apesar disso, em 21 de março, dois dias antes de deixar o cargo, Pazuello autorizou a Secretaria de Vigilância em Saúde a orientar governadores e prefeituras no sentido de utilizar toda a vacina recebida para a primeira dose.

O resultado é que o já confuso plano de imunização do governo federal ficou ainda mais bagunçado. Nas últimas semanas, pessoas que estavam à espera da segunda aplicação foram informadas que não há medicamento para isso.

O atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, repassou a batata quente para quem de direito: o seu antecessor. Disse com todas as letras que o atraso "decorre da aplicação da segunda dose como primeira dose".

Essa é uma questão simples que a CPI da Covid pode abordar quando Pazuello estiver por lá, na quarta-feira. Que ele explique por qual motivo tomou a decisão de liberar todas as remessas de CoronaVac para serem usadas como primeira dose.

Entre tantas determinações bizarras durante a gestão, o general "craque em logística" que ocupou o Ministério da Saúde escolheu uma saideira estrondosa para marcar seu adeus à pasta.

Pelas razões erradas, acabou se transformando em um ministro inesquecível. Os cidadãos que não conseguiram completar a imunização não esquecem dele até hoje.