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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Diretor da Anvisa preferiu dignidade a puxar o saco de Bolsonaro

Diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres - Jefferson Rudy/Agência Senado
Diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

11/05/2021 18h26

Além de pontos importantes, como confirmar a tal reunião em que foi sugerida a inclusão da covid-19 na bula da cloroquina e esclarecer os motivos de a Sputnik V não ter sido aprovada até agora, o depoimento no Senado do diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, teve outro marco. Provou que é possível alguém participar do governo negacionista de Jair Bolsonaro e se manter fiel à ciência. Mais que isso: pelo que se vê, mantém-se fiel à própria dignidade.

Como a coluna já assinalou, o começo de Barra Torres não foi promissor. Apareceu ao lado de Bolsonaro saudando os participantes de uma das manifestações antidemocráticas, em que fanáticos bolsonaristas pedem fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Na CPI da Covid, em momento raro entre os militares que integram o governo, reconheceu o erro e pediu desculpas.

Teve outros escorregões em sua trajetória, mas o momento definidor foi o episódio da liberação da vacina CoronaVac, algo que muitos temiam que não acontecesse depois que Bolsonaro fez de tudo para desacreditar o imunizante fabricado no Instituto Butantan. Como se viu, a agência fez o que devia fazer.

O segredo de Barra Torres foi dar carta branca a seus colaboradores, cientistas de alta qualidade.

Hoje, na CPI da Covid, o chefão da Anvisa deu um depoimento 100% pautado pela ciência. Falou contra a cloroquina, exaltou a vacina como forma mais eficaz de se proteger contra a pandemia, declarou que o comportamento de Bolsonaro "difere" do dele e, confrontado com a informação de que o presidente da República estaria contrariado com seu depoimento, avisou que vai manter a conduta.

Bem diferente de outro militar que ocupou cargo-chave no governo, o general da ativa Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, que, confundindo a pasta com a caserna, declarou, a respeito das ordens amalucadas do presidente da República, que "um manda, o outro obedece". Na verdade, nem na caserna ordens absurdas devem ser cumpridas.

Em um governo em que tantas autoridades próximas a Bolsonaro dizem "amém" para qualquer sandice que ele diga ou proponha, Antonio Barra Torres entrou para a história como a exceção que barrou no nascedouro a tentativa de alterar ilegalmente a bula de um remédio para oficializar seu uso indevido contra a covid.

Além desse marco histórico, o diretor da Anvisa terá outro benefício, este bem mais prosaico: após o depoimento de hoje poderá deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente. O que talvez não aconteça com outros colegas de governo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL