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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao topar jogar Copa América, jogadores não podem deixar Tite no vácuo

Tite, técnico da Seleção - Reprodução/CBF
Tite, técnico da Seleção Imagem: Reprodução/CBF
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

07/06/2021 14h32

Ao comentar, hoje de manhã, a ameaça dos jogadores e da comissão técnica da seleção brasileira de não disputar a Copa América, o vice-presidente Hamilton Mourão fixou-se em um só personagem: Tite. "O técnico, ele não quer mais, não quer, o Cuiabá está precisando de um técnico, aí, não está? Então, leva lá, sai, pede o boné", palpitou Mourão.

Não foi só o vice-presidente. Na enxurrada de ataques feitos por ativistas e robôs bolsonaristas no fim de semana nas redes sociais, contra um possível boicote à Copa América, praticamente todas as hashtags e memes tinham o treinador da seleção como alvo.

"Fora Tite", "Tite comunista", "PTite", foram algumas das manifestações contra o técnico, que misturavam política e esporte. Quase não se viu menção a Casemiro, por exemplo, mesmo que ele tenha dado entrevista cheia de recados subliminares à direção da CBF, ao fim do jogo contra o Equador.

Dos bastidores da confederação foram vazadas no fim de semana informações de que o presidente afastado, Rogério Caboclo, planejava demitir o treinador da seleção ainda hoje - como se sabe, foi Caboclo quem teve que se afastar para responder a acusação de assédio sexual contra uma secretária.

Foi, aliás, uma desastrada reunião de Caboclo com os atletas que fez a crise explodir.

Por ser o comandante do grupo, Tite cumpriu o papel que lhe cabia: em duas entrevistas coletivas - uma antes e outra depois do jogo do Equador - serviu como porta-voz da insatisfação dos jogadores e da comissão técnica por ter que disputar a Copa América. Em nenhum momento foi desrespeitoso, apelativo, falou em seu nome pessoal ou adiantou detalhes fora do momento acertado com o grupo.

Por causa dessa atuação do técnico a ira de muitos se voltou contra ele nos últimos dias.

Agora, a seleção anuncia que, diante do afastamento de Caboclo, vai jogar a Copa América. Ou seja, os jogadores fazem as pazes com a torcida. Pode-se gostar ou não da decisão, mas essa é uma prerrogativa deles.

Mas e o técnico Tite?

Ficará exposto à sanha dos bolsonaristas, agora sozinho?

Diante da hombridade do treinador de dar a cara a tapa para verbalizar a insatisfação que eles mostravam antes, cabe aos atletas retribuir na mesma moeda. Os jogadores ficam devendo manifestação pública de apoio ao seu comandante.

Se isso não acontecer, os craques da camisa amarela vão perder de virada uma partida histórica.

Nos últimos dias foram vistos como corajosos por alguns, mas poderão passar a ser marcados para sempre justamente pela característica oposta, a covardia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL