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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro admite que não tem prova de fraude do TSE. Vai ficar impune, PGR?

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

29/07/2021 21h35

Como era esperado, o espetáculo lamentável armado na noite de hoje pelo presidente Jair Bolsonaro para "provar" que as urnas eletrônicas não são confiáveis resultou em mais um festival de invencionices. Dois anos depois de iniciar a campanha pelo voto impresso (ou auditável, como chama agora), Bolsonaro não conseguiu nada melhor para basear seus ataques ao processo eleitoral que um conjunto de vídeos de celular e trechos de reportagens de TV, algo digno de uma tiazinha de WhatsApp.

As explicações desconjuntadas do presidente não fizeram o menor sentido. Tanto que por várias vezes ele próprio admitiu que não tinha como comprovar fraudes, apenas "indícios".

Começou a live falando de casos sem nenhuma identificação de origem em que, na votação de 2018, eleitores diziam que queriam "votar no 17 e aparecia nulo e automaticamente o 13". Alguma prova? Nenhuma.

Em seguida, sem exibir qualquer pesquisa, sustentou que a "maioria da população é favorável à mudança no processo eleitoral" e atacou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luis Roberto Barroso, dizendo que ele não quer eleições democráticas e nem transparência. Lançou suspeitas infundadas de que Barroso tem intenções escusas.

Algumas frases à frente, depois de misturar assuntos díspares como Cuba, Venezuela, Argentina, obras de infraestrutura e pandemia, o presidente voltou ao tema principal e admitiu: "Não tem como se comprovar que as urnas foram ou não foram fraudadas. São indícios". Passou então a um "analista de inteligência" para que ele demonstrasse as fragilidades do sistema.

O sujeito engravatado apresentou imagens de alguém identificado como técnico que "simula erros que podem acontecer". O homem deu "exemplos" de fraudes que teriam sido registradas no primeiro turno das eleições de 2018. "Tem vídeos aí dizendo que aconteceu isso", falou, descompromissadamente.

Bolsonaro reforçou a teoria da conspiração, dizendo que isso "aconteceu largamente". O presidente, porém, repetiu: "Não temos prova". E voltou a falar em "indícios".

A seguir, foram apresentados vídeos que há meses estão disponíveis na internet de supostos problemas nas urnas e pedaços da cobertura das eleições feita pela GloboNews e pela TV Globo. Típico material que os divulgadores de fake news usam para confundir o público incauto nas redes sociais e aplicativos de mensagens.

Mais de uma hora e meia depois de desfiar o seu raciocínio trôpego, Bolsonaro chegou ao fim da falação citando os males do comunismo, elogiando seu próprio governo, atacando os governos petistas e defendendo costumes conservadores.

O ministro da Justiça, delegado federal Anderson Torres, chegou a colaborar com uma participação relâmpago na pajelança, fazendo a leitura de sugestões da Polícia Federal ao TSE.

Destaque-se uma frase que Bolsonaro proferiu no meio da live. "Aos que me acusavam de não apresentar provas, eu devolvo a acusação: me apresentem provas de que ele (o sistema eleitoral) não é fraudável", disse o presidente.

Tenta, assim, inverter o ônus do acusador.

A comprovação da segurança das urnas existe. São os boletins emitidos pelos equipamentos a cada votação, aos quuais os partidos têm livre acesso. Ou seja, ao contrário do que diz Bolsonaro, as urnas já são auditáveis.

A campanha que o presidente sustenta contra o processo eleitoral sem conseguir apresentar uma mísera prova de fraude, como ele mesmo admitiu, é um ataque à democracia. Não é pouca coisa ter um presidente que tenta desacreditar o instrumento no qual o eleitor registra suas escolhas.

Diante da gravidade do caso, caberia ao procurador-geral da República, Augusto Aras, tomar providências.

Levando-se em conta a atuação de Aras desde que assumiu a PGR, alguém espera que isso vá acontecer?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL