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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Diante de um presidente mentiroso, Brasil age com estranha naturalidade

27.jul.2021 - Jair Bolsonaro (sem partido) fala com apoiadores na frente do Palácio da Alvorada, em Brasília - Reprodução/YouTube/Foco do Brasil
27.jul.2021 - Jair Bolsonaro (sem partido) fala com apoiadores na frente do Palácio da Alvorada, em Brasília Imagem: Reprodução/YouTube/Foco do Brasil
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

29/07/2021 04h00

Na rotina cheia de dúvidas dos brasileiros há pelo menos uma certeza: todo dia o presidente Jair Bolsonaro inventa uma mentira - ou várias. Não são pequenas lorotas, fábulas inofensivas. São mentiras pesadas, que visam arrasar a reputação dos adversários, esconder os próprios malfeitos ou desestabilizar as instituições do país.

Estranhamente, todos assistem a essa bizarrice passivamente. Parece que o Brasil se acostumou a ter um presidente mentiroso.

A situação é tão grave que o Supremo Tribunal Federal (STF) foi obrigado a tomar uma decisão que em outros tempos poderia ser considerada insólita: criou uma campanha de vídeos para rebater as cascatas do presidente.

Bolsonaro insiste em repetir que o STF o alijou das decisões sobre combate à pandemia, em favor de governadores e prefeitos. Os ministros do Supremo já repetiram dezenas de vezes que isso não é verdade. A ação deveria ser compartilhada.

De nada adianta: o presidente insiste na lorota, o que levou o ministro Luiz Fux, presidente da corte, a criar um núcleo para desmentir tais invenções nas redes sociais.

Esse episódio deveria ser suficientemente constrangedor para levar os políticos e generais que apoiam Bolsonaro a se questionar sobre se estão fazendo a coisa certa. Apesar disso, nada acontece.

O presidente mente com desenvoltura sobre vários assuntos: diz que as vacinas aplicadas no Brasil estão em fase experimental, que não pode baixar o fundo eleitoral a menos de R$ 4 bilhões porque a lei não permite, que o crime de prevaricação não se aplica a ele, que o ministro Luis Roberto Barroso "defende a redução da maioridade para estupro de vulnerável", que quem contraiu a covid-19 uma vez adquiriu imunidade permanente, e por aí vai. Tudo mentira.

De todas as invencionices, porém, a mais perigosa e recorrente é a que ele dissemina sobre as urnas eletrônicas. Há dois anos e meio, Bolsonaro repete que o atual sistema eleitoral não é confiável, sem mostrar nenhum fiapo de prova para sustentar o que diz.

Defende que as urnas emitam um comprovante de papel, recurso que remete a décadas atrás, quando o voto de cabresto comia solto e as fraudes eram frequentes. Hoje em dia, isso seria um presente para milicianos e traficantes que querem controlar os moradores dos territórios que ocupam.

O general Braga Netto, que chefia o Ministério da Defesa, em vez de tentar convencer Bolsonaro da maluquice que é esse esforço para abalar a credibilidade da urna eletrônica, embarcou no delírio bolsonariano e repetiu o mesmo discurso.

Antecipando uma tentativa de golpe, o presidente da República disse algumas vezes que sem voto impresso não haverá eleição em 2022. Foi rebatido pelos presidentes da Câmara, do Senado, do Tribunal Superior Eleitoral, pelo seu vice e outras autoridades.

Mesmo assim, continua repetindo a mesma fantasia sobre as urnas eletrônicas.

Nos últimos dias, foi além. Bolsonaro propagandeou que em sua live de hoje finalmente vai apresentar as provas de fraude.

Obviamente, é mais uma lorota.

O homem eleito como "Mito" finge ser um mitômano, simula acreditar nas próprias mentiras. A única verdade em Bolsonaro é a intenção golpista, que nunca se deu ao trabalho de esconder.

Tudo o mais nessa falsa polêmica da urna eletrônica, como em várias outras controvérsias criadas pelo presidente, não passa de ficção de quinta categoria que não podemos aceitarcomo normalidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL