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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como será o centenário dos inimigos de Paulo Freire?

Paulo Freire - Ilustração: Camila Pizzolotto
Paulo Freire Imagem: Ilustração: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

19/09/2021 13h59

Recorrer às ideias do educador Paulo Freire é caminho fundamental para professores de todos os recantos do planeta, mas no Brasil de hoje é algo imprescindível. A Educação brasileira nunca precisou tanto de boas referências para enfrentar as dificuldades.
Não faltam más notícias.

Um levantamento feito pela OCDE constatou que nossos professores dos anos finais do ensino fundamental têm o piso salarial mais baixo entre 40 países avaliados.

Desde 2019, o Ministério da Educação é dirigido por embusteiros intelectuais, reacionários ou ignorantes, que enxergam os professores como inimigos e os alunos como um peso para o Estado, pelo custo que representam.

Temos um presidente que é capaz de vomitar a seguinte frase: "O Estado foi muito inchado. Eu não vou dizer que não precisa de professor, mas o excesso atrapalha". Jair Bolsonaro deu essa resposta absurda a um apoiador que comentou que "tem muito comunismo nas escolas".

Coincidentemente, justo nesse momento em que estamos afundados no pântano obscurantista, comemora-se o centenário de nascimento de Paulo Freire.

O que poderia ser apenas uma efeméride irrelevante, avolumou-se e serviu para lembrar não apenas o homem, mas sua obra, que encantou e tem sido útil a professores de todo o mundo.

Universidades de várias nacionalidades promoveram seminários para discutir a obra do educador brasileiro - uma delas, a Loughborough University, de Londres, deu ao ciclo de debates o simpático título "7 conversas para preparar os próximos 100 anos".

Nas melhores universidades brasileiras, a data serviu para revisitar as suas ideias. Repetiu-se muitas vezes a frase freireana "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor" - uma verdade que o Brasil comprova diariamente.

Outras reflexões do mestre circularam como bálsamo para amenizar a barra pesada de nossa realidade bizarra: "Me movo como educador, porque, primeiro, me movo como gente"; "Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes."; "Sem um senso de identidade, não pode haver luta real" e por aí vai.

Até mesmo o Google, esse gigante da tecnologia, estampou na sua frontpage uma imagem de Freire e em sua conta no Twitter observou que ele é "considerado um dos pensadores mais importantes na história da pedagogia mundial". Completa a descrição definindo-o como "defensor da educação libertadora", "considerado o patrono da educação brasileira" e elogiando sua obra, "referenciada no mundo todo até hoje".

Enquanto acontecem as homenagens e os debates, a indigência intelectual bolsonarista ataca, xinga, reclama, faz de tudo para menosprezar esse excepcional brasileiro.

Mas proponho uma estratégia para diminuir a irritação com tamanha idiotia.

Façamos um exercício de futurologia: nos centenários de olavos, weintraubs, bolsonaros e outros da mesma laia, alguém ainda se lembrará deles?

Obviamente não.

Estarão no mesmo túmulo do esquecimento dos brucutus da ditadura militar que obrigaram o educador a ir para o exílio, em 1964.

Enquanto isso, tudo indica que nos 200 anos de nascimento de Paulo Freire tanto ele quanto sua obra estarão tão vivos quanto estão hoje.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL