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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na ONU, o fantástico mundo de Bolsonaro não convence ninguém

Jair Bolsonaro discursa na 76ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) - Eduardo Munoz-Pool/Getty Images
Jair Bolsonaro discursa na 76ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) Imagem: Eduardo Munoz-Pool/Getty Images
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

21/09/2021 12h30

Depois de uma série de vexames preliminares, ocorridos desde que chegou a Nova York, o presidente Jair Bolsonaro fez hoje o discurso na assembleia geral da ONU - o vexame principal. Como de costume, mentiu e distorceu fatos para, segundo ele, "mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto nas televisões". Ele tem razão: o país que Bolsonaro apresentou no discurso é completamente divergente da realidade.

Começou repetindo a lenga-lenga de que seu governo não tem corrupção. Desconsidera a acusação contra o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que, segundo a Polícia Federal, seria parceiro de contrabandistas de madeira; ignora a estranha negociação para compra da vacina indiana Covaxin, com garantias falsas e suposto pedido de propina por um servidor do Ministério da Saúde; não dá bola para a denúncia feita na CPI da Covid de tráfico de influência por parte de seu filho, Jair Renan, entre outras ocorrências.

Seguiu o discurso citando outros delírios recorrentes. Como o de que o país estava à beira do socialismo no momento em que ele assumiu e que as estatais brasileiras davam prejuízos de bilhões de dólares. Mas se superou na frase seguinte, quando teve a cara-de-pau de dizer que recuperou a credibilidade brasileira perante o mundo. Para desmenti-lo, bastaria um passeio pelos comentários dedicados a ele ontem e hoje nos jornais e TVs internacionais.

Mas se não quiser se fiar na imprensa, que considera inimiga, é só relembrar a bronca pública do prefeito de Nova York, Bill De Blasio, em Bolsonaro: "Se não quer ser vacinado, nem venha". Ou a fala do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, recomendando ao presidente brasileiro que se vacinasse, como se estivesse se dirigindo a um incapaz.

Um momento sublime de cinismo ocorreu quando Bolsonaro tratou do meio ambiente. Não ficou sequer ruborizado ao dizer que "nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa como a nossa", como se diariamente seu governo não fizesse o possível para facilitar a vida dos transgressores e agressores da natureza.

O presidente que decepou 35% dos recursos do Ministério do Meio Ambiente em 2021 contou aos líderes mundiais a lorota de que dobrou recursos humanos e financeiros para órgãos ambientais.

Classificou como "política externa séria e responsável" a diplomacia que até meses atrás tinha como chefe o inclassificável chanceler Ernesto Araújo.

Encaminhou-se para o final mentindo que apoiou a vacinação, quando na verdade atrasou absurdamente a compra de imunizantes e fez o possível para desacreditá-los. No delírio mais grave, voltou a falar de "tratamento inicial" (leia-se cloroquina e ivermectina), discussão que desde o ano passado está encerrada, com a conclusão pela comunidade científica internacional de que até agora não há outra solução para a pandemia que não as vacinas.

Megalômano, referiu-se à mobilização bolsonarista de 7 de setembro como a "maior manifestação de nossa história".

A explanação fantasiosa de Bolsonaro não fez a mínima diferença para os governantes que a assistiram, já que têm informações suficientes para saber que a maior parte de suas palavras se desmancha no ar. Na imprensa internacional, tampouco.

Um bom exemplo está estampado no site do jornal americano The Washington Post, que não deu bola para as invencionices bolsonarianas. O periódico concentrou-se no fato de que o presidente brasileiro, que ainda não se vacinou, desobedeceu o protocolo da ONU na pandemia, segundo o qual os presidentes não são cobrados por um passaporte de imunização: basta que passem o crachá na portaria da sede da entidade para acreditar-se que se vacinaram.

Não bastassem as lorotas proferidas ao mundo, Bolsonaro foi destaque no Washington Post por ter quebrado o "sistema de honra" das Nações Unidas.

Como se vê, o poço do vexame não tem fundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL