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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Liesa negocia apoio do governo Bolsonaro a Carnaval e é criticada nas redes

Jorge Perlingeiro e Mário Frias - Reprodução Redes Sociais
Jorge Perlingeiro e Mário Frias Imagem: Reprodução Redes Sociais
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

02/10/2021 04h00

O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa), Jorge Perlingeiro, encontrou-se na quinta-feira (30) com o secretário especial de Cultura do governo federal, Mário Frias, em Brasília. O objetivo do encontro foi negociar apoio da gestão Jair Bolsonaro ao desfile de 2022 no Sambódromo. Nas redes sociais da Liesa, a grande maioria dos seguidores se mostrou contrária à parceria.

O apoio deverá ser fechado em nova reunião, marcada para o dia 13 de outubro. Na visita de quinta-feira, Perlingeiro detalhou a Frias os preparativos para o próximo desfile no Sambódromo e falou da necessidade de revitalizar a Cidade do Samba, para transformá-la em novo centro de cultura e turismo para o Rio de Janeiro.

A possibilidade de trabalho conjunto não agradou aos seguidores da Liesa nas redes sociais. "E quando a gente pensa que não pode piorar... ", "Não se juntem com essa gente", "#Ele não", "O Governo Federal que botou a culpa da pandemia no carnaval?", foram alguns dos comentários no Instagram, muitos com emoji em que o bonequinho aparece vomitando.

No Twitter, a maioria dos comentários teve o mesmo tom. "Crivella não foi o suficiente? Não aprendem nunca!", "Nojo", "Espero que apenas patrocine (que é obrigação) e não venha interferir na nossa festa", são algumas das observações.

No desfile do ano passado, Jair Bolsonaro foi alvo de críticas contundentes no Sambódromo. Na escola São Clemente, o ator e comediante Marcelo Adnet imitou o presidente fazendo flexões e gestos de arma com a mão. Um carro alegórico da escola trazia um cartaz com a frase "a culpa é do Leonardo DiCaprio", uma referência a Bolsonaro, que culpou o ator de Hollywood pelos incêndios na Floresta Amazônica.

O samba enredo da Mangueira trazia menção explícita ao presidente, no trecho "Não tem futuro sem partilha nem Messias de arma na mão".

Os enredos que serão apresentados no desfile de 2022 também colidem com diretrizes do governo Bolsonaro e seus aliados. A Mocidade Independente de Padre Miguel vai levar à avenida o enredo "Batuque ao caçador", homenagem a Oxóssi, e a Grande Rio vai desfilar com o tema "Fala, Majeté! Sete chaves de Exu", tributo a outra entidade do Candomblé.

O governo federal tem dado pouca importância aos símbolos das religiões afrobrasileiras. Bolsonaro tem como aliados políticos lideranças de igrejas evangélicas neopentecostais, alguns deles acusados de intolerância religiosa.

Um dos sambas mais contundentes da atual safra é o da Beija-Flor, que tem letra significativa: "Foi-se o açoite, a chibata sucumbiu/ Mas você não reconhece o que o negro construiu, Foi-se o açoite, a chibata sucumbiu/ E o meu povo ainda chora pelas balas de fuzil/ Quem é sempre revistado é refém da acusação/ O racismo mascarado pela falsa abolição".

A composição parece não combinar em nada com um governo que defende o excludente de ilicitude para ações policiais, tem projetos de multiplicar a venda de armas - inclusive fuzis - e mantém na presidência da Fundação Palmares um personagem como Sérgio Camargo, que afirmou que a escravidão foi "benéfica para os descendentes".