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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Achei que não chegaria a 200 mil mortos, diz pai que perdeu filho por covid

O taxista Marcio Antônio do Nascimento Silva recoloca cruzes na areia de Copacabana depois que um homem as retirou - Reprodução/Twitter
O taxista Marcio Antônio do Nascimento Silva recoloca cruzes na areia de Copacabana depois que um homem as retirou Imagem: Reprodução/Twitter
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

08/10/2021 11h48

Correu mundo a imagem de Márcio Antonio do Nascimento Silva recolocando no lugar as cruzes que tinham sido derrubadas por um negacionista durante ato na Praia de Copacabana, em homenagem às vítimas da pandemia. O episódio ocorreu em junho do ano passado e dois meses antes ele tinha perdido o filho, Hugo, de 25 anos, que morreu de covid-19. Naquele momento, o Brasil registrava 100 mil óbitos por coronavírus.

"Nunca imaginei que chegaríamos a 200 mil, apesar de todo descaso, de todo negacionismo", disse Márcio, de 57 anos, à coluna. Hoje o país chegou à marca de 600 mil mortes na pandemia.

Além da dor de perder o filho, dois primos e a irmã para a covid-19, ele sofre a cada vez que ouve o presidente Jair Bolsonaro e outros integrantes do governo minimizando a pandemia.

"A fala dele (Bolsonaro) é típica da pessoa que realmente não pensa nos outros, que não se importa", lamenta.

Por causa do ato de coragem que protagonizou no ano passado, ao levantar as cruzes de protesto, e por suas declarações, Márcio se tornou uma espécie de porta-voz daqueles que perderam pessoas queridas nessa pandemia. Foi convidado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) a participar da sessão de encerramento da CPI da Covid.

A seguir, os principais tópicos da entrevista:

Multiplicação de mortes
Aquele ato na praia era em homenagem a 100 mil pessoas mortas. Nunca imaginei que chegaríamos a 200 mil, apesar de todo descaso, de todo negacionismo. Mas conforme o tempo foi passando, a gente foi vendo que realmente o vírus era uma coisa muito forte, muito contagiosa. O mais impressionante é que as autoridades, principalmente do Executivo, não tomaram as providências para amenizar ou tentar terminar com isso.

Eles fizeram tudo ao contrário, negaram todas as medidas sanitárias importantes. Quando chegou a 200 mil eu já comecei a ver que se nada mudasse, se nada fosse feito, nós chegaríamos realmente a muito mais.

No momento daquele protesto, eu perdi meu filho e um primo. O tempo foi passando e eu perdi outro primo, um amigo, a minha irmã. Então, é muita tristeza, sabe? É com muita indignação que vejo que chegamos 600 mil mortos. As pessoas que deveriam evitar isso continuam com o mesmo negacionismo, a mesma dificuldade de ter empatia com a nossa dor, o mesmo descaso. Então, é muito difícil.

Não foi só o problema da covid, foi o problema é desse governo que ainda é negacionista, que fez tudo ao contrário. Então, boa parte dessas mortes é responsabilidade dele.

Bolsonaro minimiza a pandemia
Hoje em dia eu não aguento olhar para a cara dele, eu não aguento ouvir nada que ele fala, até porque nada que ele fala pessoalmente me interessa porque eu já me senti muito magoado, já senti a raiva, já senti ódio e hoje graças a Deus eu conquistei a paz no meu coração.

Infelizmente, o que ele fala reflete nas nossas vidas, então eu tento combater isso com atos de solidariedade, procurando ajudar as pessoas, falando sobre a minha história que é importante para as pessoas saberem. Porque a fala dele (Bolsonaro) é típica da pessoa que realmente não pensa nos outros, que não se importa.

Nós que perdemos amigos e parentes para essa doença tão terrível sabemos que são pessoas que poderiam estar aqui. É realmente empatia o que está faltando sabe? A falta de humanidade talvez seja o nosso pior problema.

Porque competência eles não têm para resolver nossos problemas econômicos, nem para resolver os problemas do país, isso está comprovado. O mais difícil é saber que não têm o mínimo de humanidade. Quem teve a perda não importa se foi uma pessoa com comorbidade, uma pessoa mais velha. É uma perda, é um ser humano. Tanto faz se tem 60, 70, 80, 25 ou 10 anos, como foi o caso no colégio do meu filho, o menino que morreu com dez anos.

Quando as autoridades do governo vão falar na televisão, eu desligo, não quero ouvir, eu fico sabendo depois. É muita falta de ética, de moral. Eles têm que entender que toda a vida importa. Se não importa para eles, importa para alguém.

Defesa da cloroquina
É realmente uma coisa que a gente lamenta muito, principalmente quando vem de pessoas da ciência, que estudaram, que são médicos.

Como meu filho ficou doente logo no começo da pandemia, em momento que os médicos não sabiam como tratar, e ele estava muito grave, foi ministrado a ele a cloroquina. Hoje sei que naquele momento os médicos estavam tentando de tudo com a doença desconhecida. Mas hoje em dia, com o avanço da das pesquisas, gente muito séria já provou que esse tratamento não tem eficácia. Meu filho é uma prova disso, porque ele teve esse tipo de tratamento e morreu.

Então, é muito difícil, é muito triste que você acompanhar a CPI e ver senadores que fazem a defesa de tratamentos indefensáveis. Creio no fundo há dinheiro envolvido nessa questão. Creio que há um ganho financeiro, porque não pode mais as pessoas ficarem nessa mesma tecla depois de tudo comprovado, que a cloroquina tem sua eficiência, mas não para esse tipo de doença.

As mesmas pessoas defendem isso não defendem a vacina, que realmente ajuda a diminuir o número de mortes.