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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ideias do candidato Moro para economia são tão desafinadas quanto a sua voz

William Waack e Sergio Moro - Reprodução de vídeo
William Waack e Sergio Moro Imagem: Reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

24/11/2021 12h32

Apesar do trabalho que faz com uma fonoaudióloga, a voz de Sergio Moro continua desafinada, como pôde constatar quem assistiu ontem a entrevista dada por ele ao jornalista William Waack, na CNN Brasil. Isso não seria o maior dos problemas. O próprio ex-juiz disse, na filiação ao partido Podemos, que o importante não é a forma como fala, mas o conteúdo do que apresenta à plateia. Sendo assim, a julgar pelo que mostrou na entrevista, pode-se dizer que Moro está completamente fora do tom.

Quem esperava conhecer melhor suas propostas para a economia se frustrou. O ex-juiz desfiou uma coletânea de platitudes que não permitem vislumbrar qual caminho pretende tomar. Algumas vezes, deixou transparecer total desconhecimento sobre importantes temas nacionais.

Como quando tentou apresentar ideias para superar a pobreza. Disse que tem conversado com especialistas que sugeriram uma "abordagem mais individualizada" do problema e assim sugerir solução caso a caso. "Pode ser uma coisa simples, uma falta de emprego, uma oportunidade de ensino, às vezes até o tratamento da saúde", detalhou.

Algum assessor precisa avisar ao ex-juiz que gerar empregos, propiciar educação de qualidade e oferecer atendimento de saúde decente à população são tarefas que estão longe de ser uma "coisa simples". Na verdade, esses três itens são alguns dos principais entraves ao bem-estar dos brasileiros e a resolução dessa equação é motivo de muitas discussões e estudos entre os principais economistas do país.

Mas na cabeça de Moro tudo pode se resolver no mesmo estilo xerifão que exerceu na Lava Jato. Por isso, voltou a falar em criar uma força-tarefa para "acabar de vez com a pobreza no Brasil", ideia que já tinha citado na cerimônia de filiação. Como se sabe, sugerir soluções simplórias para problemas complexos é meio caminho para o fracasso.

O entrevistado criticou o rompimento do teto de gastos, a falta de "credibilidade fiscal" do governo, a ameaça de recessão. Disse que não poderia responder se privatizaria a Petrobras antes de fazer estudos e declarou-se a favor de uma economia liberal.

Repetiu o eterno refrão de que é preciso fazer reformas. Esquivou-se, porém, de esclarecer se isso incluiria medidas contra os privilégios do Judiciário, de onde ele é oriundo.

Moro afirmou que "o serviço público pode ser reduzido, mas profissional", para logo em seguida dizer que "reforma não pode se limitar a redução de custos". Ou seja, parece — difícil saber ao certo — ter defendido uma máquina com menos servidores, mas com salários altos. Algo parecido com o que pensa o ministro Paulo Guedes, para quem é possível manter os salários polpudos dos chefes engravatados de Brasília e demitir funcionários que trabalham na ponta, prestando o serviço mais importante aos cidadãos.

O candidato arrematou, ao fim do pensamento tortuoso: "Não é assim tão complicado termos um serviço público eficiente".

Waack alertou que o telespectador teria ficado confuso. "Não sei se quem nos assiste entendeu se afinal de contas o senhor lutaria contra determinados privilégios no funcionalismo público", disse o entrevistador. O ex-juiz limitou-se a citar a atuação na Justiça de Curitiba como atestado de que é um paladino na luta contra os privilégios.

No mais, repetiu o repertório conhecido: criticou o Supremo Tribunal Federal por anular as sentenças da Lava Jato e considerá-lo suspeito, atacou Lula — teve a coragem de dizer que, ao determinar sua prisão poupou-o de uma derrota eleitoral em 2018 — e Bolsonaro, vangloriou-se pela atuação no combate à corrupção.

Moro falou muitas vezes que todo governante deve basear a atuação em um "projeto", mas terminou a entrevista sem apresentar as próprias diretrizes.

A um ano das eleições, mais que cuidar da voz, o ex-juiz terá muito trabalho pela frente para afinar suas ideias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL