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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Diretor da Anvisa e ministro da Saúde, os opostos no governo negacionista

Antonio Barra Torres e Marcelo Queiroga - Divulgação e reprodução de vídeo
Antonio Barra Torres e Marcelo Queiroga Imagem: Divulgação e reprodução de vídeo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

08/12/2021 06h53

Ninguém poderá limpar do currículo a mancha de ter ingressado no governo de Jair Bolsonaro, um desastre anunciado que degringolou o país em todas as latitudes — econômica, educacional, social, ética... Uma vez no cargo, porém, cada integrante da equipe governamental pode escolher entre tentar servir aos brasileiros ou simplesmente resignar-se em ser escravo dos delírios autoritários de um presidente desclassificado.

Como a coluna já observou, o almirante Antonio Barra Torres, contra todos os prognósticos, escolheu a primeira opção. À frente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), começou pisando na bola ao acompanhar Bolsonaro em Brasília a uma das manifestações de trogloditas que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. À CPI da Covid, reconheceu o erro e pediu desculpas.

Na administração da Anvisa, Barra Torres tem se saído bem. Em meio a um governo de lunáticos negacionistas, respaldou as conclusões da equipe técnica em momentos cruciais, como a aprovação da Coronavac, rejeição das vacinas Covaxin e Sputnik e orientação categórica de que remédios como cloroquina e ivermectina não servem para tratar covid-19.

Nos últimos dias, a Anvisa foi mais uma vez na contramão do que desejava o presidente ao sugerir a restrição de vôos oriundos de alguns países africanos, após o surgimento da variante ômicrom.

A gota d'água foi aconselhar a adoção do passaporte vacinal para permitir o ingresso de passageiros no país — medida que vigora praticamente no mundo inteiro.

A sugestão de providência tão simples, respaldada na ciência, irritou Bolsonaro, que, em coro com sua corja terraplanista, repete o refrão de que isso seria um atentado contra a liberdade individual. Em conluio com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o presidente decidiu ontem que o governo não vai exigir o passaporte vacinal, mas obrigará os viajantes não vacinados que chegam a uma quarentena de cinco dias e posterior testagem.

Condenada pelos especialistas, a medida é impraticável. A quantidade de testes preventivos aplicados no Brasil é baixíssima, a fiscalização desses casos demandará uma equipe gigantesca e o Ministério da Saúde não explicou onde as pessoas ficarão isoladas. Imaginar milhares de turistas sendo monitorados 24h é devaneio.

Tudo indica que os debilóides antivacina acabarão por ter entrada facilitada no Brasil — pelo menos até que o Judiciário restabeleça a racionalidade.

Para coroar esse momento ensandecido que vive o país, o próprio ministro da Saúde, um médico, repetiu frase tresloucada de Bolsonaro para justificar a decisão.

"Às vezes é melhor perder a vida do que perder a liberdade", disse ele, aos jornalistas.

Em um governo que todos os dias produz frases estapafúrdias, Queiroga talvez tenha chegado ao ápice. Especialmente por essa justificativa suicida ter sido dada por um profissional que é formado para salvar vidas.

A gravidade de uma política pública baseada em tal premissa é incomensurável. Estivessem as instituições funcionando, esse governo, que publicamente admite colocar em risco a vida dos brasileiros, deveria ser imediatamente colocado em xeque. No cenário atual, em que o apoio no Congresso é comprado ao custo de bilhões em recursos públicos cujos critérios de distribuição são desconhecidos, Bolsonaro continuará a desgovernar o país.

Em defesa da população restarão apenas alguns poucos servidores e chefes que, mesmo fazendo parte dessa engrenagem, resguardam seus princípios pessoais e preferem discordar das sandices do presidente a entrar para a história como meros puxa-sacos.

É o caso do diretor da Anvisa.

Antonio Barra Torres teria certamente muito a ensinar a Marcelo Queiroga. A ânsia de bajulação, no entanto, impedirá o .ministro de entender o papel lamentável que desempenha — assim como os demais integrantes da equipe palaciana que são cúmplices desse disparate.

Se a mancha por entrar no governo Bolsonaro não vai ser apagada, a forma como cada um desempenhou o seu papel vai determinar o conceito que terá aqui fora, depois de pedir o boné.

Barra Torres e Queiroga são exemplos opostos, que a posteridade saberá julgar.

O problema é o que acontece enquanto a posteridade não chega.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL