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Chico Alves

REPORTAGEM

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Ao lado de Braga Netto, empresário defende 'tirar' funcionários de esquerda

Colunista do UOL

15/09/2022 14h52

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Em reunião que teve a participação do general da reserva Walter Braga Netto, candidato a vice na chapa de Jair Bolsonaro à reeleição, o empresário mineiro Carlos Bartolomeu defendeu que os proprietários de empresas devem "tirar pessoas que estão deturpando". Na mesma fala, dirigida a Braga Netto, ele dá exemplo do tipo de empregado a que se refere. "Já tive lá presidente de PSOL fazendo mal para funcionário da minha empresa", afirmou.

Vestindo camisa verde e amarela com foto do presidente da República, Bartolomeu foi aplaudido pelos outros empresários presentes e pelo secretário de Assuntos Estratégicos do governo Bolsonaro, almirante Flávio Rocha, que também participou do evento. Braga Netto sorriu.

O encontro ocorreu na terça-feira (13), em Belo Horizonte.

"Nós temos que sair daqui com uma mudança de proposta. Você é dono da sua empresa, você é dono do seu negócio, você vai agir e tirar pessoas que estão deturpando", disse Bartolomeu, cuja declaração foi gravada em vídeo. "Já tive lá presidente de PSOL fazendo mal para funcionários contra a empresa (sic)".

Em outro vídeo, divulgado ontem, o empresário voltou ao assunto:

"Pessoal, ontem, dia 13/09, estivemos com o nosso futuro vice-presidente Braga Netto. Fez uma palestra maravilhosa sobre a condição do Brasil, conheci mais pessoas do time do nosso presidente e gostaria de passar para vocês empresários que a nossa responsabilidade vai muito além de você dar emprego e pagar salários. Você tem que mostrar sua posição. Você tem que evitar aquele funcionário de esquerda que faz política dentro da sua empresa", diz Bartolomeu, vestido com uma camisa com a imagem de Bolsonaro e a inscrição "Vamos deixar um país melhor para filhos e netos".

E prossegue: "Então vamos acordar, não vamos perseguir ninguém, mas ter uma posição firme contra essas pessoas que querem minar a nossa empresa. Um grande abraço e vamos em frente para fazer um país melhor para nossos filhos e netos".

A coluna entrou em contato por email com o empresário para que ele explique sua declaração atacando trabalhadores das empresas que se identifiquem com a ideologia de esquerda, mas não obteve resposta.

Carlos Bartolomeu é dono da distribuidora Bartofil, sediada na cidade mineira de Ponte Nova. Segundo informações postadas no perfil do Linkedin, a companhia tem 50 mil clientes ativos, em mais de 4.500 cidades brasileiras, onta "com mais de 2.000 colaboradores e 1.300 representantes comerciais autônomos, além de 1600m² de área de Contact Centers".

Apesar de o evento de terça-feira 13 com empresários fazer parte da campanha da chapa de Bolsonaro, encontro de Braga Netto com empresários teve a presença do secretário especial de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha. A coluna entrou em contato com a assessoria de comunicação do Palácio do Planalto para saber o motivo da participação de Rocha, já que ele integra o governo e não a campanha de Bolsonaro, e quando tiver resposta publicará neste espaço.

Especialistas ouvidos pela coluna divergem sobre se a atitude Carlos Bartolomeu configura crime ou não. Para o advogado Alberto Rollo, não há conduta criminosa, apesar de considerar "abominável" a atitude. "Não vejo crime ao se falar em tese. Se alguém for demitido por esta razão, concretamente, daí se pode falar em indenização sem justa causa ou algum crime de discriminação", explica ele.

Já um procurador do Ministério Público Eleitoral, ouvido sob anonimato, acha que em tese é possível enquadrar a declaração no artigo 301 do Código Eleitoral, que classifica como crime "usar de violência ou grave ameaça para coagir alguém a votar, ou não votar, em determinado candidato ou partido, ainda que os fins visados não sejam conseguidos". A pena prevista é de até quatro anos.