Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
Proibição de cerveja lembra ao mundo que o Qatar é uma ditadura absolutista
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Em nome da maior festa do futebol, a Copa do Mundo, e dos negócios bilionários motivados por ela, o Qatar recebeu uma espécie de salvo conduto planetário. Há meses, o espaço dedicado ao país no noticiário internacional trata na maior parte da construção de estádios, preparação do evento e atrações turísticas do território.
As violações dos direitos humanos ocorridas ali são tratadas apenas de passagem, de forma protocolar, uma espécie de pé de página que acompanha as informações esportivas.
É como se fossem meros detalhes a censura à imprensa, a criminalização da comunidade LGBTQI, a limitação dos direitos das mulheres e os maus tratos a trabalhadores migrantes expostos a temperaturas extremas e com baixos salários — cerca de 6.500 deles teriam morrido na construção de estádios, informou o jornal inglês The Guardian.
De um lado, a paixão dos torcedores, e, de outro, a montanha de dólares gerada pelo evento propiciam essa amnésia. A partir de domingo e até meados de dezembro, as imagens emitidas do Qatar para todo o mundo serão povoadas por gente alegre, atletas de ponta, multidões vibrantes.
Serão cenas que parecem não combinar com esse emirado absolutista que não se submete à Constituição, onde partidos políticos não são permitidos e a última eleição foi realizada em 1970. Um regime ditatorial, em suma.
Foi justamente para apagar esse lado bárbaro que o governo do Qatar candidatou-se a sediar a Copa do Mundo. Seria uma bela forma de mostrar-se como nação simpática e moderna, nem que para isso fosse preciso abrir mão de algumas de suas proibições. Como a da venda de cerveja, por exemplo.
Na negociação para fazer a Copa, a Fifa conseguiu liberar a venda de cerveja nos oito estádios onde os jogos seriam realizados, em um período de seis horas.
Hoje, porém, o governo qatari informou à Fifa que, por determinação da família real, a flexibilização acertada antes foi cancelada. Agora, a ordem é liberar apenas cerveja sem álcool. Como era de se esperar, torcedores, organizadores e - principalmente - patrocinadores chiaram.
Reaprendem na prática o que pareciam ter esquecido: ditaduras são assim, fazem o que lhes dá na telha, não se importam se agridem ou não o direito. Não estão nem aí para a vontade do povo, dos empresários ou dos outros países.
Esse episódio poderia servir também para que os falsos patriotas que estão à porta dos quartéis em vários estados do Brasil relembrassem os males causados por regimes totalitários como esse que estão pregando, em parceria com fundamentalistas evangélicos. Infelizmente, o grau de dissonância cognitiva que atingiram dificilmente permitirá essa interpretação.
Se as mortes de migrantes, a violação de direitos das mulheres e dos gays e a censura à imprensa não sensibilizam o bastante, é algo digno de reflexão que o caráter ditatorial do governo do Qatar seja ressaltado por essa arbitrariedade anunciada hoje: a proibição da venda de cerveja.
Assista ao documentário "A Convite do Qatar: a visão feminina sobre as restrições no país da Copa"
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