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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nada mudará na política externa enquanto Bolsonaro for presidente

O ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) - WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) Imagem: WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

29/03/2021 14h17

* Vinícius Rodrigues Vieira

O mais ferrenho dos bolsonaristas ideológicos da esplanada caiu. Ernesto Araújo pediu demissão nesta segunda-feira (29), confirmando os sinais que havia emitido nos últimos dias. Nada, porém, deverá mudar substancialmente em nossa política externa até que o presidente Jair Bolsonaro deixe o Planalto. Isso porque o chanceler de fato é seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Pode haver alterações na retórica, mas o Brasil pária veio para ficar. Algumas inflexões podem ser feitas, sobretudo na área ambiental, de modo a reconstruirmos pontes com os Estados Unidos de Joe Biden e apaziguarmos a ira dos protecionistas europeus que usam a destruição da Amazônia para escamotear seus interesses.

Com os chineses, podemos esperar uma retórica mais amena, mas permeada pelas tensões residuais dos dois primeiros anos do mandato de Bolsonaro. Ademais, talvez testemunhemos alguma mudança nos relacionamentos necessários à obtenção de insumos necessários ao combate ao coronavírus, nada mais.

Será surpreendente caso haja correções de rota na agenda regional e de direitos humanos. Continuaremos de costas para a América Latina — com a qual geramos uma dívida inestimável ao renunciarmos à liderança regional no combate à pandemia e servirmos de celeiro para variantes mais transmissíveis da covid-19. Seguiremos lado a lado dos regimes mais tenebrosos do mundo no que diz respeito aos direitos das mulheres e demais minorias sociológicas.

Já é surpreendente, porém, que haja quadros do Itamaraty dispostos a ocupar a cadeira de Rio Branco, putrificada pela visão de mundo de Araújo e seus comandantes. O embaixador Luis Fernando Serra, atualmente nosso representante em Paris, era, no começo da tarde de segunda-feira, o mais cotado para suceder ao pior chanceler da história do país. É desde já candidato a destronar o ex-ministro de tal título.

Isso porque sempre se pode esperar o pior do bolsonarismo. Até agora o governo seguiu, em linhas gerais, o roteiro de "fim do Brasil" que tracei em novembro passado, antes de confirmada a vitória de Joe Biden contra Donald Trump. Bolsonaro se esforça para dar sequência à obra de seu grande ídolo do Norte, tomando seu lugar como líder na defesa do tradicionalismo nas relações internacionais.

Que o Itamaraty tenha quadros dispostos a tamanha subserviência a uma família e seu projeto de poder e negação dos interesses do país deve ser objeto de escrutínio futuro numa era pós-Bolsonaro. Membros de uma burocracia que fosse verdadeiramente bem treinada não aceitariam comandar uma política externa que acabou com o capital político internacional construído ao longo dos anos pós-democratização.

Sempre existem os carreiristas, mas Araújo e provavelmente Serra são os primeiros adesistas a se juntarem a um regime que, tudo indica, será no futuro para os brasileiros o que o nazismo é para os alemães.

O bolsovírus contaminou o país e as instituições de Estado, até mesmo aquelas que todos imaginávamos estarem a salvo da luta político-partidária mais renhida. Combater parte das células infectadas, como o Itamaraty, não cura o doente — isto é, o Brasil democrático. Apenas adia sua morte nas mãos do arbítrio obscurantista a que estaremos submetidos enquanto o cérebro de nossa destruição permanecer no Planalto.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na FGV

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL