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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mais do que isolado, Brasil de Bolsonaro é objeto de desprezo internacional

30.out.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante Cúpula de Líderes do G20 - Filippo Monteforte/AFP
30.out.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante Cúpula de Líderes do G20 Imagem: Filippo Monteforte/AFP
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

31/10/2021 10h12

* Cesar Calejon

A política externa de um país é o maior conjunto de políticas públicas exercidas por determinada nação frente à sociedade internacional. Trata-se do tipo de política que representa a coletividade brasileira perante o mundo e que, portanto, historicamente foi formulada com base em teorias basilares das Relações Internacionais, como reciprocidade, equidistância e pragmatismo, tal qual fazem basicamente todas as principais sociedades civis modernas. Ao longo dos últimos três anos, entretanto, o bolsonarismo simplesmente passou por cima de todos esses parâmetros.

A ausência de reuniões de peso com outros chefes de Estado na agenda do presidente brasileiro durante a reunião do G20, na Itália, reflete a falta de responsabilidade com que o governo Bolsonaro conduziu a política externa brasileira desde o início do seu mandato e demonstra a extensão do trágico isolamento ao qual o Brasil foi submetido, consequentemente.

O Itamaraty, antes principal formulador da Política Externa Brasileira, foi relegado ao papel de observador/organizador, na melhor das hipóteses, das estratégias que foram tomadas pelos núcleos mais fundamentalistas do gabinete da gestão Bolsonaro e, atabalhoadamente, pelo próprio presidente da República.

Até esse ponto, Bolsonaro é um dos pouquíssimos presidentes que não tem reuniões agendadas com outros chefes de Estado, exceto pelo presidente italiano, Sergio Mattarella, que deve receber todos os outros líderes por ser o anfitrião do evento.

Em seguida, os principais representantes da sociedade internacional seguem a Glasgow, na Escócia, para a COP 26, evento ao qual Bolsonaro não comparecerá, porque, segundo o seu próprio vice-presidente, "todo mundo jogaria pedra nele". Assim, incapaz de defender qualquer interesse brasileiro, Bolsonaro foi fazer turismo na Europa, literalmente, para evitar o apedrejamento moral.

Mas o isolamento do Brasil tem consequências muito mais nefastas que não podem simplesmente ser evitadas com um passeio pelo Velho Mundo, como pretende o presidente ao afirmar que tem muita popularidade com o eleitorado nacional para Erdogan, o líder autoritário da Turquia.

Após anos de uma política externa inconsequente, inepta, que se prestou ao papel de capacho do governo Trump mesmo meses após a derrota do ex-presidente estadunidense, e elaborada exclusivamente para atender aos interesses dos ruralistas, dos evangélicos, dos militares e dos antiglobalistas, o Brasil criou diversos pontos de atritos junto à sociedade internacional.

Nesse sentido, o termo "isolamento" é um certo eufemismo para a atual situação brasileira. A integração regional da América do Sul, a crise com o mercado árabe, os conflitos com a França, com a China e com a Argentina, a falência do acordo do Mercosul com a União Europeia, a devastação das áreas de preservação e florestas nacionais e todos os impropérios que Bolsonaro reiteradamente efetivou durante a pandemia criaram uma degradação sem precedentes da nossa imagem frente ao restante do planeta.

Infelizmente, esse cenário está consolidado e, hoje, o Brasil tem interlocução somente com os países mais autoritários e retrógrados do mundo. Culpar o "mercado", a Petrobras, a imprensa e agir como geralmente lhe é de costume no seu "cercadinho", mentindo e inventando factoides, não surtirá efeito no jogo da geopolítica global.

A organização da política externa de um país como o Brasil funciona como a navegação de um imenso transatlântico. As determinações de rotas e destinos demoram a fazer efeito e devem ser pensadas com muita cautela, com base em conhecimentos técnicos e científicos que foram previamente consolidados. Sob Bolsonaro, a embarcação brasileira está perdida no meio do oceano e prestes a naufragar à deriva.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL