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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Disseminação do olavismo deveria inspirar autocrítica em setores da direita

Olavo de Carvalho - Reprodução/Youtube
Olavo de Carvalho Imagem: Reprodução/Youtube
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

25/01/2022 21h40

* Igor Tadeu Camilo Rocha

Olavo de Carvalho, escritor errônea e nocivamente chamado muitas vezes de filósofo, faleceu, mas certamente não levou consigo o olavismo. Chamado de guru do bolsonarismo a partir de 2018, sua trajetória como divulgador de teorias de conspiração e negacionismos científicos e históricos remonta, pelo menos, aos anos 1990.

Olavo de Carvalho foi um dos grandes intelectuais públicos da nossa época, ainda que caiba a ressalva que "intelectual", aqui, não é um termo usado com nenhuma conotação positiva — nem negativa —, mas que se refere àqueles que levam suas ideias, por meios diversos, à esfera pública e conseguem provocar reações e movimentos nela, influenciando seus rumos.

Olavo de Carvalho fez isso com suas teorias conspiratórias e negacionismos, usando de cursos, artigos, vídeos no YouTube e angariando todo um grupo de seguidores que se organizava em sua órbita como numa espécie de seita — ele já foi líder de uma entre os anos 1970 e 1980, diga-se de passagem.

Já nos anos 1990, Olavo se tornou divulgador da tese conspiratória do "marxismo cultural", segundo a qual a esquerda, de maneira organizada e harmônica, teria desistido das pautas econômicas e investido no controle da cultura, controlando da produção artística até as universidades. Na década seguinte, criou o termo "gayzismo", reformulando a tese fundamentalista religiosa da ideologia de gênero, recorrendo ao pânico moral de maneira a defender que haveria uma espécie de imposição da homossexualidade feita sistematicamente por muitos agentes espalhados nas estruturas da mídia, Estados e outros.

Em paralelo a isso, fez afirmações que foram ridicularizadas por muitos até tornarem-se constitutivas das formas de pensar do neofascismo brasileiro: quando dizia ter refutado figuras como Newton e Einstein, por mais ridículo que isso possa parecer à primeira vista, ele se inseria em todo um sistema de negação da modernidade que fideliza e fanatiza quem o tem como voz legítima de produção de conhecimento. Dessas ideias surgiram toda sorte de ecossistemas de informação e rejeições à ciência, democracia ou valores modernos no geral, gerando um nós (fiéis ao Olavo) x eles (o resto, "manipulado") e gerando um senso de pertencimento a quem compartilhava dos códigos e linguagens do olavismo.

Assim, claro, foi pavimentado o caminho para uma Nova Direita, que assumiu o poder e que, hoje, se movimenta no sentido de destruir o próprio Estado brasileiro. Há autores, como no artigo do historiador Warley Alves publicado nesta coluna, que analisam o papel de Olavo de Carvalho na promoção das ideias alinhadas ao chamado tradicionalismo no Brasil.

A forma de ver a realidade fomentada pelo tradicionalismo, segundo a versão olavista, parte do resgate de um mundo que nunca existiu, presente num passado idealizado, e que politicamente se reflete numa doutrina à direita de quase qualquer outra direita brasileira, por rejeitar a própria política moderna como meio de resolução de questões e fomentar um ideal pré-político de sociedade, autoritário, dogmático e reativo a qualquer coisa que ameace seu sistema fechado de crenças.

Mas há outra questão que precisamos levantar: quem pavimentou o caminho de Olavo de Carvalho? Afinal, seria quase uma enorme desconexão com a realidade da minha parte acreditar num mito construído por ele mesmo, do self-made man que construiu sua robusta seita a partir do nada.

Há o velho ditado de que "filho feio não tem pai", e isso se aplica à trajetória de Olavo de Carvalho, mais ainda àqueles que ajudaram a normalizar seu sistema no debate público. Não vou me alongar citando todos os nomes, mas o "guru do bolsonarismo" de hoje apareceu nos anos 1990 publicando em editoras bem estabelecidas no mainstream brasileiro e, bem antes do seu obscuro blog, ele já teve coluna em jornais e revistas importantes e de grande circulação no Brasil. Já foi elogiado por jornalistas que hoje se afirmam como moderados e contrários à atual onda reacionária. Isso sem contar cursos, palestras e outros muitas vezes pagos por empresários e afins.

Honestamente, não consigo acreditar plenamente que em algum momento as ideias de Olavo de Carvalho pareceram interessantes e de grande contribuição ao debate público para alguma coisa. Acho bem difícil encontrar alguma contribuição positiva vinda de alguém que afirmava ter refutado as leis da física e respondia com um ataque de "comunista" contra quem dissesse o contrário. Entendo que possamos seguir por dois caminhos para esboçarmos uma resposta a isso.

Primeiramente que, aceitemos ou não, nos conformemos ou não, gostemos ou não, as ideias estapafúrdias de Olavo de Carvalho encontram receptividade em muitos setores da sociedade brasileira. O ressentimento contra a universidade pública ou contra uma classe artística, ou doutrinas que invertam a equação das lutas sociais, colocando minorias como as populações LGBTQIA+ ou mulheres como autoritários, não vieram do olavismo.

Também não veio dele o saudosismo com a ditadura militar ou propensão a soluções autoritárias na política, ou as rejeições à ciência quando esta diz algo que não se deseja ouvir. Olavo de Carvalho, nesse caso, capitalizou e criou um nicho de consumo de ideias antimodernas, que já existiam no país, em torno de si.

Não obstante, em algum momento nas décadas de 2000 e 2010, muitos jornais, revistas, jornalistas e outros de uma direita moderada, muitos dos quais afirmam hoje fazer oposição ao bolsonarismo, entenderam por bem que valia tudo contra o PT. Não somente contra o partido então no governo, mas contra as esquerdas, no geral.

E não importava o quanto obscuras, dogmáticas ou fascistoides fossem as armas. Nesse sentido, os espaços para Olavo de Carvalho e seguidores cresceram nesse período, muito em virtude de ações do guru, claro, mas também por força de muitos elogios, apoios tácitos ou explícitos e espaços cedidos às suas teses e sistemas conspiratórios.

Novamente sem me alongar nesse tema, é importante que seja feita uma autocrítica por quem ajudou a introduzir os sistemas olavistas no debate público como contraponto válido a ideias sustentadas com base em conhecimentos obtidos por meio da ciência, reflexão e pensamento crítico.

O preço por adotar doutrinas como o olavismo como meio de atacar adversários pode ser alto demais a longo prazo e pode se voltar contra quem o adota em algum momento — lembremos seus paralelos com o tradicionalismo, idealizações de um passado a ser resgatado e rejeições à modernidade.

Quanto aos legados possíveis de Olavo de Carvalho, diante das características sectárias e personalistas do olavismo, não acredito nem no completo esquecimento do seu sistema de pensamento, nem na eleição de um herdeiro óbvio para ocupar seu lugar na extrema direita. Entendendo até o caráter desarmônico da sua comunidade de seguidores, acredito que o mais provável seja uma disputa nos próximos anos por todo o capital político-ideológico do pseudo-filósofo pelos seus discípulos — provavelmente com os mesmos procedimentos usados por Carvalho ao longo de sua vida, com xingamentos, mentiras, ataques pessoais e tudo mais.

Ao fim e ao cabo, o olavismo permanece e as várias camadas da sociedade brasileira que o acolheram, também. Certos problemas — os da política, por exemplo — extrapolam muito o tempo de uma vida humana, afinal.

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais