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OPINIÃO

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Olavo deu roupagem intelectual ao extremismo que gestou Bolsonaro

O deputado Eduardo Bolsonaro posa ao lado de Olavo de Carvalho com uma camiseta onde se lê "Olavo tem razão" - Reprodução/Twitter/Eduardo Bolsonaro
O deputado Eduardo Bolsonaro posa ao lado de Olavo de Carvalho com uma camiseta onde se lê 'Olavo tem razão' Imagem: Reprodução/Twitter/Eduardo Bolsonaro

Colunista do UOL

25/01/2022 11h09

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* Murilo Cleto

Morreu na madrugada desta terça-feira (25), aos 74 anos, em Richmond, na Virgínia (EUA), o escritor Olavo de Carvalho. Embora a causa não tenha sido divulgada, ele estava internado depois de diagnóstico positivo de covid-19. Nas redes sociais, políticos e influenciadores das novas direitas, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, têm prestado comovidas homenagens, que têm sua razão de ser: Olavo foi um dos seus grandes parteiros, como ele mesmo dizia.

Depois da Constituinte, dizer-se de direita havia virado um tabu no Brasil. A experiência traumática da ditadura contaminou tanto o termo que os partidos não identificados com a esquerda ou com o regime passaram a se chamar de "centro". Dono de uma biografia nada monótona, Olavo de Carvalho já foi militante comunista, astrólogo, jornalista, adepto de uma ordem mística muçulmana e, por fim, se consolidou como uma das principais vozes da extrema direita no país.

A filiação, no entanto, o incomodava. Certa vez, chegou a expulsar de casa uma jornalista que revelou entrevistá-lo a partir dessa premissa. Mas o diagnóstico tem lastro: são incontáveis as publicações do escritor que celebram ou conclamam ditaduras e golpes de Estado pela direita. Sua única crítica à ditadura militar é que ela teria matado pouco, atribuindo aos militares a responsabilidade pelo que entendia ser o avanço do comunismo no país durante a Guerra Fria.

Em 1994, Olavo lançou o texto que sintetizaria as bases do seu pensamento. "A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra e Antonio Gramsci" sustenta a tese de que a esquerda, que não era páreo para os exércitos pró-capitalistas, partiu para uma revolução silenciosa na cultura, ocupando os circuitos artísticos, universitários e jornalísticos para destruir os valores da civilização ocidental e fazer aquilo que não conseguiu através das armas.

Em "1964: o Brasil entre armas e livros", documentário sobre a ditadura da produtora audiovisual Brasil Paralelo, de forte inclinação olavista, o próprio escritor tem a oportunidade de se explicar: não havia, diz Olavo no filme, "uma única publicação de direita no Brasil". Para ele, o único espaço concedido a conservadores nos jornais eram os editoriais.

Mas o argumento não era novo. Sob encomenda do ministro do Exército do governo de transição, o general Leônidas Pires Gonçalves, a caserna preparou um contragolpe ao célebre "Brasil: nunca mais", livro que rodou o mundo com denúncias de violações aos direitos humanos praticadas ostensivamente pela ditadura.

"O livro negro do terrorismo no Brasil", conhecido como "Orvil" — "livro" ao contrário —, lista o que seriam quatro tentativas de tomada do poder pela esquerda: primeiro, entre a fundação do Partido Comunista, em 1922, e a Revolta Vermelha de 1935; depois, com o período que vai do suicídio de Vargas até o golpe em 1964; mais tarde, com a luta armada entre 1968 e 1974, ano em que é desmantelada a Guerrilha do Araguaia; e, por fim, desde então e até hoje através dessa revolução cultural cuja mentoria é atribuída a ao sociólogo Herbert Marcuse.

O presidente Sarney acabou vetando a obra, mas ela circulou internamente por duas décadas até que, em 2009, um general revelou seu conteúdo ao jornalista Lucas Figueiredo. Em linhas gerais, o que esse calhamaço de quase mil páginas faz é aplicar os pressupostos da Doutrina de Segurança Nacional à história da República para atribuir aos militares o papel de salvadores da pátria.

A Doutrina de Segurança Nacional apareceu com força na Guerra Fria, quando a iminência de uma invasão externa serviu para justificar, num contexto fortemente polarizado, medidas excepcionais de defesa que viessem a garantir a soberania de uma nação sob ameaça. Mais do que um mecanismo de proteção, no entanto, ela acabou operando como um poderoso álibi para os abusos cometidos pelas Forças Armadas e um mecanismo de chantagem contra a abertura democrática.

Em "Guerra cultural e retórica do ódio", livro lançado em 2021 pela editora Caminhos, o professor de literatura João Cezar de Castro Rocha aponta o Orvil como a fonte de toda estratégia discursiva bolsonarista no presente. "A militância virtual bolsonarista", disse em entrevista à Agência Pública, "realiza massacres de reputação com uma violência e virulência inéditas no Brasil". Por trás deles, está justamente a lógica do inimigo interno, que também autoriza de antemão o desmonte institucional levado a cabo pelo próprio Planalto.

Olavo de Carvalho apareceu no meio do caminho para dar a esse modo de ver o mundo uma roupagem intelectual, que, mais tarde, com a centralidade das redes sociais digitais na arena pública, também virou memética. Nos anos 1990, o escritor buscou, sem sucesso, o financiamento de think tanks liberais. Mas seu discurso era agressivo e desrespeitoso demais com oponentes ideológicos, como avaliaram, anos depois, as lideranças da época. Olavo fez dos palavrões um expediente comum. No Diário do Comércio, em 2009, respondeu a um leitor:

"Mais vale um bom palavrão atirado à cara de um Tarso Genro, de um Marco Aurélio Garcia, do que mil palavras construtivas atiradas ao vento. O Brasil, no momento, não precisa de boas ideias, precisa é de uma ação vigorosa, implacável, contra o império da maldade, da mentira e da estupidez."

Já em 2013, escreveu especificamente sobre o tema:

"Eu uso palavrões porque são NECESSÁRIOS. São necessários no contexto brasileiro para demolir essa linguagem polida que é uma camisa-de-força que prende as pessoas, obrigando-as a respeitar o que não merece respeito. Então, às vezes, quando você discorda de um sujeito, mas discorda respeitosamente, você está dando mais força pra ele do que se concordasse. Porque você está indo contra a ideia dele, mas você está reforçando a autoridade dele. A autoridade é a respeitabilidade. O problema dessas pessoas, desses bandidos de que eu estou falando, não são as ideias. É justamente o fato de que são canalhas. São canalhas, são bandidos, são ladrões. V-Ã-O-T-O-D-O-S-T-O-M-A-R-N-O-C-U!"

A citação é autoexplicativa. Por essas e por outras, apesar do trânsito em redações de grandes jornais do país, Olavo de Carvalho permaneceu durante um bom tempo como um autor marginal do pensamento político brasileiro. Sua primeira leva de livros, ainda nos anos 1990, saiu por editoras menores. Em 1998, o escritor fundou o blog Sapientiam autem non vincit malitia (A sabedoria não é vencida pela malicia) e, já em 2002, o site Mídia Sem Máscara, ativo até hoje.

Mas foi com a rede social Orkut que tudo começou a mudar. Em sua tese de doutoramento em Ciência Política pela USP, publicada em 2021 pela editora Todavia, Camila Rocha aponta a popularização do Orkut como um importante ponto de clivagem na atuação das direitas no Brasil.

O Orkut foi importante, segundo Rocha, porque operou como fórum de circulação de ideias pouco comuns aos espaços universitários e jornalísticos, mas também porque, graças ao caráter mais anárquico da rede, com pouca regulação estatal e altíssima tolerância a perfis falsos e anônimos, permitiu debates a cada dia mais obscenos, como tanto queria Olavo.

Para a cientista política, esses contrapúblicos digitais, que se formaram justamente como contraponto aos públicos dominantes, cresceram, ganharam forma e acabaram se imiscuindo no debate público, antes majoritariamente refratário a posturas mais iconoclastas. Além do ultraliberalismo, também ganharam espaço o conservadorismo e o extremismo de direita.

Olavo de Carvalho foi junto: angariou milhares de alunos para seus cursos online de filosofia e, a partir de 2013, passou a publicar pelo Grupo Editorial Record. Em 2015, em meio aos protestos pelo impeachment de Dilma, virou best-seller. As ruas passaram a exibir, com cada vez mais frequência, cartazes de "Olavo tem razão!". Entre setembro e dezembro de 2018, ano eleitoral, as vendas de seus livros simplesmente triplicaram.

O escritor recomendou ministros, secretários e assessores para o novo governo, além de organizar a principal frente de tensionamento institucional pró-Bolsonaro, que Marcos Nobre chamou de "ala mobilizadora". A ela, cabe a tarefa de disseminar notícias falsas, difamar oponentes e ameaçar representantes de outros poderes, como se o verdadeiro poder estivesse sempre em outro lugar. A missão, como se sabe, tem sido cumprida com esmero. Quando criticou o governo, foi para reclamar da falta de radicalismo.

Olavo chegou até o clã Bolsonaro por meio de Flávio, em 2012. Meses depois, o então deputado estadual, empolgado com os vídeos do ideólogo, o homenageou com a medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia do Rio de Janeiro. Eduardo visitou Olavo em janeiro de 2017. Em outubro, foi a vez de Jair. Foi quando a aliança, enfim, se sacramentou.

No Roda Viva que o sabatinou como presidenciável, Bolsonaro disse ter como livro de cabeceira "A verdade sufocada", do notório torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. O texto é uma espécie de repaginação do Orvil, mas centrado sobretudo na trajetória do coronel que chefiou o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo.

Quando dedicou seu voto pelo impeachment à memória de Ustra, o que fez Bolsonaro foi romper com a postura institucional das Forças Armadas, que sempre tratou a ditadura com alguma distância segura. Ustra não é, para o presidente, um caluniado pela esquerda, mas "'o pavor' de Dilma Rousseff". Quer dizer, trata-se de uma incorporação positiva e, no limite, cínica da repressão.

Bolsonaro gerou revolta na Câmara, em 2009, ao posar ao lado de um cartaz que, referindo-se aos desaparecidos do Araguaia, dizia que quem procura osso é cachorro. Antes de saber, Bolsonaro já era olavista. A parcela das Forças Armadas com a qual o presidente se identifica é a que nunca aliviou para a oposição. No conflito entre a linha dura e os moderados, ele sempre ficou com o porão. Por isso, quando Olavo abria fogo contra os militares no governo Bolsonaro, era por considerar que não estavam sendo golpistas o suficiente.

Uma reportagem do The Intercept Brasil revelou recentemente como um radical católico espanhol conseguiu organizar, em 2013, a militância até então fragmentada da extrema direita cristã através de uma estratégia centrada nas guerras culturais. Entre os interlocutores brasileiros, estão diversos contatos de Olavo. Bolsonaro, que desde 2011 vinha se empenhando nas guerras culturais, era um deles.

Praticamente monotemático durante os primeiros mandatos, defendendo em plenário pautas de interesse exclusivo dos militares, Bolsonaro passou a incorporar novas agendas a partir da cruzada contra o material anti-homofobia que seria distribuído pelo MEC nas escolas. Aliou-se, então, a fundamentalistas cristãos e, em 2014, com um repertório mais variado, grande exposição midiática e o lulismo em queda livre, obteve quatro vezes mais votos para a Câmara do que o habitual.

Aos ressentidos contra as universidades, Olavo de Carvalho caiu como uma luva. O escritor aproveitou-se da grande capacidade persuasiva para difundir leituras distorcidas de cânones da Filosofia e teorias conspiratórias as mais estapafúrdias possíveis. Hoje, não há quem não saiba sobre sua tese envolvendo o açúcar no refrigerante Pepsi. Olavo, que via o espectro comunista em absolutamente tudo, também sugeriu que as canções dos Beatles teriam sido compostas na verdade pelo filósofo Theodor Adorno.

Há 15 anos, essas ideias eram motivo de piada nos corredores dos cursos de História. Hoje, ajudam a pautar políticas públicas. Não deixa de ser irônico que Olavo tenha morrido com o vírus que, segundo ele mesmo, não mataria ninguém. Seja como for, o ideólogo mostrou que esse pode ser um caminho no mínimo muito lucrativo.

* Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural, mestre em Ciências Humanas: Cultura e Sociedade e pesquisador das novas direitas no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná