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Grupo alvo do STF fez apologia à violência contra Gilmar: "Tiro no Sapão"

Constança Rezende

É colunista do UOL em Brasília. Passou pelas redações do Estadão no Rio de Janeiro, O DIA e Jornal do Commercio.

Colunista do UOL

03/06/2020 04h00

Investigados no inquérito do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre fake news, ofensas e ameaças à corte fundaram um movimento cujos integrantes fizeram apologia à violência contra o ministro Gilmar Mendes.

Membros do Movimento Conservador produziram um vídeo em que seguram armas falsas, vestidos de camisas pretas, e dizem: "Vamos pegar o Sapão", "Tiro no Sapão", em referência ao apelido pejorativo dado a Mendes.

Em seguida, eles colocam um boneco com uma imagem do rosto do ministro no porta-malas do carro e dizem: "Vem aqui, Gilmar. Dar tapa na sua cara. Aqui ó, sequestramos o cara". No final, um homem completa: "Tiro no sapão".

No mesmo dia, o grupo colocou duas faixas com os dizeres "Sal no Sapão" e "Fora Gilmar Mendes", em passarelas do município de São José dos Campos, no interior de São Paulo, onde o vídeo foi gravado.

O Movimento Conservador foi fundado em dezembro de 2018 pelo deputado estadual Douglas Garcia (PSL) e pelo seu chefe de gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Edson Salomão.

Ambos foram alvo da operação da Polícia Federal, deflagrada no último dia 27, no âmbito do inquérito das fake news do STF, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes.

O movimento também tem como um de seus maiores divulgadores o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O vídeo que faz apologia à violência contra Gilmar é conduzido por Tiago Rosa Silvestre, assessor do deputado estadual Castello Branco, do PSL-SP.

Um assessor de Douglas Garcia na Alesp, Carlos Henrique Olimpio, também aparece no vídeo e diz que "vai derrubar o sapão" e "sal no sapo". Eles se preparavam para uma manifestação contra o ministro.

O material foi entregue pela deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) à CPMI das Fake News do Congresso, em dezembro do ano passado, e obtido pelo UOL. Na ocasião, Joice disse que o vídeo poderia ser classificado como "incitação ao crime".

"Crítica é uma coisa. Talvez eu tenha sido uma das maiores críticas do ministro Gilmar Mendes. Agora, isso não é uma crítica, isso é uma clara ameaça, uma incitação ao crime e um crime propriamente dito", disse.

Após a divulgação do vídeo na CPMI, o ministro Alexandre de Moraes pediu para que os envolvidos fossem ouvidos pela PF.

Silveira, assessor do deputado Castello Branco, chegou a publicar uma foto sua em frente à PF no dia de seu depoimento, com os dizeres: "Fomos sim alvos de operação da PF em relação CPMI das Fake News! A ditadura do STF está a todo vapor contra aqueles que ousam a bater de frente com eles! E os traidores continuam atacando quem está ao lado de nosso presidente!", escreveu.

Os dois assessores foram procurados através de contato com os respectivos gabinetes na Alesp. O de Douglas Garcia respondeu que, apesar de o vídeo guardar relação com o Movimento Conservador, não guarda com o mandato do deputado. "O deputado Douglas Garcia não concorda e repudia manifestações nesse sentido", disse.

"O Movimento Conservador está presente em diversos estados e, em São Paulo, em mais de 70 municípios, de modo que os seus membros possuem autonomia e devem responder individualmente pelos seus atos. Quando o vídeo se tornou público e a coordenação nacional tomou ciência do mesmo, os responsáveis foram advertidos. Inclusive, algumas pessoas que aparecem no vídeo não fazem mais parte do movimento", disse.

Questionado sobre a participação de seu funcionário no vídeo, Garcia disse que todos os seus servidores "são contra a violência, a sua apologia e defendem os valores conservadores e cristãos". Apesar disso, afirmou que os responsáveis foram advertidos, "permanecendo apenas os que entenderam a gravidade do ato e o tamanho do erro cometido".

Já o deputado Castello Branco respondeu que "a conduta equivocada praticada por Tiago Rosa Silvestre foi feita sem autorização e sem o conhecimento do gabinete parlamentar". "Em razão disso, sua conduta foi advertida veementemente e solicitado que não mais proceda desta forma. À época dos fatos, o colaborador foi chamado ao gabinete para explicar e/ou justificar suas atitudes, considerando não ser este o perfil de comportamento compatível deste parlamentar", explicou.

O deputado afirmou que o servidor ainda encontra-se lotado em seu gabinete, com previsão de afastamento ao final deste mês.

"No mais, saliento que o sr. Tiago, ressalvado o fato ocorrido, vem apresentando desempenho profissional ao longo do tempo, sempre com muita dedicação e competência às suas funções e responsabilidades de assessor parlamentar. Cabe ressaltar que este parlamentar condena qualquer declaração ou tentativa de ameaça às liberdades políticas e ao pleno funcionamento das instituições brasileiras", disse.