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Diogo Schelp


Notícias pessimistas podem ajudar a salvar vidas na pandemia, sugere estudo

06.04.2020 - Aglomeração de pessoas na região central de Belo Horizonte (MG), apesar de determinação para isolamento social contra novo coronavírus - Alex de Jesus/O Tempo/Estadão Conteúdo
06.04.2020 - Aglomeração de pessoas na região central de Belo Horizonte (MG), apesar de determinação para isolamento social contra novo coronavírus Imagem: Alex de Jesus/O Tempo/Estadão Conteúdo
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

08/04/2020 04h00

Uma das táticas utilizadas pelo presidente Jair Bolsonaro para minimizar a gravidade da pandemia do novo coronavírus é acusar a imprensa de promover a histeria e de divulgar "apenas" notícias pessimistas. O que a imprensa procura fazer, no entanto, é formar um mosaico o mais completo possível com os milhares de cacos de informação disponíveis, conferindo quais têm qualidade ou não para serem utilizados. A pandemia e toda a ciência necessária para compreendê-la formam um mosaico complexo - e o quadro geral continuará pessimista enquanto as recomendações dos especialistas não forem levadas a sério.

Bolsonaro e alguns comentaristas políticos que se alinharam ao seu discurso contra as medidas de distanciamento social para conter o avanço do vírus recorrem a mensagens simples - cacos desconexos - para passar uma visão mais otimista do impacto da covid-19. Por exemplo, quando dizem que o isolamento social em São Paulo não está funcionando, já que o número de contaminados continua crescendo, omitem que a taxa de transmissão do vírus caiu, o que significa que o número de novos casos estaria aumentando ainda mais se não fosse esse tipo de medida.

Outro exemplo de "cacos" fora de lugar é quando se afirma que, no Brasil, a gripe H1N1 matou mais de 2.000 pessoas e que esse número não foi alcançado pela covid-19, sem levar em consideração o fato de que o novo coronavírus tem uma taxa de transmissão duas vezes maior e uma taxa de letalidade 20 vezes maior do que o H1N1 - e que ainda estamos em abril.

O problema das mensagens otimistas que colocam informações científicas fora de contexto, minimizando a gravidade da pandemia, é que elas confundem a população e desmobilizam os esforços para evitar que o avanço da doença provoque um colapso do sistema de saúde.

Um estudo inédito realizado por Sandro Cabral e Carolina Melo, pesquisadores em Políticas Públicas do Insper, em São Paulo, mostra a importância de o governo adotar uma estratégia de comunicação coesa, que passe segurança mesmo quando se faz necessário expor uma realidade alarmante.

O estudo testou em que medida mensagens pessimistas ou otimistas simples sobre a pandemia do coronavírus, sem maiores contextualizações, influenciam na preocupação das pessoas em relação à doença e na disposição de adotar medidas preventivas.

Entre os dias 26 e 28 de março, portanto poucos dias após o pronunciamento em que Bolsonaro classificou a covid-19 como uma "gripezinha", os pesquisadores do Insper submeteram um questionário a 571 entrevistados ao redor do Brasil. A composição da amostra não representa a população brasileira, mas permite fazer constatações interessantes a respeito do efeito da comunicação sobre o comportamento das pessoas em meio à pandemia.

Uma parte dos entrevistados, antes de responder ao questionário, leu um texto informativo neutro sobre a covid-19. Um segundo grupo de entrevistados recebeu uma informação adicional de cunho pessimista, sobre as altas taxas de letalidade na Itália e na Espanha, enquanto a um terceiro grupo foram apresentados os dados mais otimistas da Noruega e da Austrália.

Com base nas respostas, descobriu-se que as informações otimistas ou pessimistas tendem a modificar a atitude das pessoas em relação à doença. E essa mudança é maior ou menor dependendo do perfil dos entrevistados.

A mensagem pessimista, por exemplo, aumentou em 8,33 pontos percentuais a probabilidade das pessoas com nível superior intensificarem a adoção de medidas preventivas contra o vírus.

O grupo mais sensível às mensagens sobre a pandemia foi o das pessoas com 50 anos de idade ou mais - justamente as mais vulneráveis à doença. Entre as que leram as informações mais pessimistas sobre a letalidade do covid-19, a probabilidade de considerarem as medidas de isolamento social um exagero era 19,25 pontos percentuais menor do que entre pessoas mais jovens.

Por outro lado, a mensagem mais otimista reduziu significativamente a disposição das pessoas com mais de 50 anos em adotar medidas preventivas (uma diminuição de 15,2 pontos percentuais).

Ou seja, sugere o estudo, "comunicar a severidade da situação pode induzir cidadãos mais velhos ou em grupos de risco a dar mais atenção aos perigos potenciais da epidemia e aumentar sua colaboração para prevenir a disseminação do vírus".

Em outras palavras, municiar a população com informações realistas, ainda que pessimistas, da pandemia - tanto no noticiário da imprensa quanto nas declarações das autoridades - pode salvar vidas.

É o oposto do que tem feito o presidente Jair Bolsonaro: ao mesmo tempo em que ele defende o distanciamento social apenas para idosos, usa informações incompletas, sem base científica e fora de contexto para dizer que os perigos não são tão reais assim.

Diogo Schelp