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Diogo Schelp


Apesar da queda, aprovação do governo Bolsonaro ainda é alta. Por quê?

O presidente Jair Bolsonaro                              - EVARISTO SA/AFP
O presidente Jair Bolsonaro Imagem: EVARISTO SA/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

12/05/2020 15h03

Os resultados da pesquisa CNT/MDA divulgados nesta terça-feira (12) mostram uma queda nos índices de aprovação do governo de Jair Bolsonaro. A proporção dos entrevistados que considera sua administração ótima ou boa caiu 2,5 pontos percentuais de janeiro até agora, batendo em 32%. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais. Ainda assim, é uma aprovação alta, considerando-se tudo o que vem acontecendo.

As declarações de indiferença em relação aos milhares de brasileiros mortos pela covid-19; a briga com o herói do eleitorado lavajatista Sergio Moro, que levantou a suspeita de que Bolsonaro tem interesses não republicanos em investigações da Polícia Federal; o flerte com tentações autoritárias; as medidas de boicote aos esforços estaduais e municipais para conter o avanço da pandemia; e a demora do governo em socorrer os mais afetados e desamparados pela suspensão das atividades econômicas, entre outros fatos, nada disso parece abalar o apoio irredutível de um terço dos brasileiros ao presidente.

A pesquisa mostra que há mais cidadãos insatisfeitos do que satisfeitos com o desempenho do governo. Ainda assim, 32% de aprovação é uma marca espantosa para o contexto atual. Basta lembrar que o pior índice de aprovação do governo Lula, segundo a mesma pesquisa, foi de 29,4%, em junho de 2004 — praticamente a mesma mínima histórica da gestão Bolsonaro até agora, de 29%, obtida em agosto de 2019.

A explicação para esse fenômeno é que, como todo líder populista, Bolsonaro se alimenta de crises. Nesses momentos, perde-se o respaldo de apoiadores de ocasião, mas reforça-se a lealdade dos seguidores mais ferrenhos.

O populismo, como descrevi aqui, exige a construção de uma narrativa política em que a ideia de um povo de caráter monolítico enfrenta um inimigo interno, geralmente personificado em uma "elite" que sustenta um "sistema" perverso. As crises servem como comprovação dessa narrativa, pois são apresentadas como resultado da reação das elites à vontade do povo.

O presidente venezuelano Hugo Chávez era mestre em explorar as crises vividas por seu país para servir de pano de fundo para sua narrativa populista. Fome, desabastecimento de itens básicos, desemprego, blecautes de energia e perseguição política — mesmo com todas as agruras enfrentadas pelos venezuelanos, Chávez sempre manteve uma base de apoio fiel, que nos piores momentos girou em torno de 30% de aprovação ao seu governo.

Um terço: eis a marca dos populistas.

Diogo Schelp