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Diogo Schelp


O que ocorreria se os protestos contra Bolsonaro não estivessem represados?

31.mai.2020 - Faixa com crítica ao governo Jair Bolsonaro é exibida em protesto na avenida Paulista, em São Paulo - Aiuri Rebello/UOL
31.mai.2020 - Faixa com crítica ao governo Jair Bolsonaro é exibida em protesto na avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Aiuri Rebello/UOL
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

01/06/2020 17h18

Protestos populares de rua funcionam? Historiadores, sociólogos e cientistas políticos ao redor do mundo sofrem para encontrar uma resposta satisfatória. O que o movimento Occupy Wall Street, em 2011, alcançou para reduzir o poder das corporações financeiras? Concretamente, nada. A revolta dos guarda-chuvas em Hong Kong, que ocorreu em 2014 com repeteco em 2019, pode até ter adiado os planos do governo chinês para tomar de assalto a autonomia do território, mas os fatos recentes indicam que a vitória não está do lado dos manifestantes. A Primavera Árabe varreu o Norte da África e o Oriente Médio a partir de 2011 e levou à queda de alguns ditadores de longa data, mas também resultou em guerras civis que duram até hoje e, no Egito, em um regime autocrático que simplesmente substituiu outro.

A pergunta tornou-se urgente em um Brasil esmagado de um lado por milhares de mortes causadas pelo novo coronavírus, de outro pela recessão causada pela pandemia e de cima pela crise política criada pelo presidente da República, o incendiário Jair Bolsonaro.

Um punhado de bolsonaristas dispostos a desafiar o vírus se reúnem a cada fim de semana para dar apoio ao presidente e para protestar contra as medidas de isolamento social impostas por governadores e prefeitos.

Mas os descontentes com o governo federal e com sua inépcia em coordenar uma resposta nacional efetiva contra a pandemia, que já fez do território brasileiro seu epicentro, ainda se mantêm longe das ruas — até porque recorrer a elas representa jogar para o alto o princípio de evitar aglomerações.

Neste domingo (31), as coisas começaram a mudar. Manifestantes identificados com torcidas de futebol reuniram-se na Av. Paulista, em São Paulo, para protestar contra as ameaças à democracia que partem do Poder Executivo, mas especificamente de declarações de ministros, do próprio presidente e de seus filhos políticos.

A PM de São Paulo se viu obrigada a recorrer a bombas de efeito moral para impedir que os torcedores pró-democracia se engalfinhassem com os bolsonaristas que também ocupavam um espaço na mesma via. Ao contrário das críticas à atuação da polícia, que teria "reprimido" violentamente os "antifascistas", a operação foi normal, dentro do esperado para a situação, e provavelmente o saldo de feridos seria muito pior se os dois grupos antagônicos tivessem se enfrentado.

Um argumento convincente que emergiu do protesto de domingo é o de que manifestações contrárias ao governo que terminam em violência são uma dádiva para Bolsonaro e seu entorno, que sonham com uma desculpa para recorrer às Forças Armadas para colocar ordem no galinheiro, digo, nas ruas e para fechar as instituições que se opuserem a isso.

Há, porém, outra maneira de encarar a questão. A indignação com um presidente que se prova cada vez mais inepto em lidar com uma crise de saúde pública e econômica sem precedentes na história brasileira está represada dentro das casas, onde os cidadãos (que podem) cumprem o isolamento. Dar vazão a esse sentimento com pauladas estridentes nas panelas há muito deixou de ser satisfatório.

Enquanto as pesquisas de opinião confirmam que Bolsonaro tem uma aprovação praticamente imutável de cerca de um terço da população, a porcentagem de insatisfeitos vem aumentando rapidamente.

Ou seja, a proporção dos brasileiros que consideram regular o desempenho do governo Bolsonaro — incluindo aí aqueles que votaram no capitão, mas vinham tolerando seus desmandos — está despencando. Quando esses arrependidos e todos aqueles que nunca engoliram Bolsonaro se sentirem seguros para inundar as ruas, como vai ser?

Costuma-se dizer que um presidente só sofre impeachment se tiver aprovação de um dígito: com menos de 10% de aprovação, portanto.

E que impacto podem ter protestos de rua nos índices de aprovação? Temos pistas na história recente de nosso país para a resposta a essa pergunta. Quando ocorreram as famosas jornadas de junho de 2013, que começaram com protestos contra tarifas nos transportes e se espalharam como um vírus respiratório por todo o país, canalizando um mosaico de frustrações populares, o governo da então presidente Dilma Rousseff tinha impressionantes 54,2% de avaliação positiva, segundo pesquisa CNT/MDA. No mês seguinte, essa aprovação caiu para 31,3%. O índice melhorou um pouco nos anos seguintes, mas despencou para 7,7% em março de 2015, após um ano de protestos contra a gastança nas obras para a Copa do Mundo e com os primeiros sinais da recessão econômica que viria a assolar o país no biênio seguinte.

O exemplo de Dilma Rousseff mostra que grandes protestos populares no Brasil têm o poder de despertar insatisfações. É muito provável que o mesmo fenômeno se repetiria no atual contexto. Quando as comportas da quarentena forem abertas, podemos ver o início de uma onda de protestos cada vez maiores e uma queda abrupta na aprovação do governo Bolsonaro.

Se convocadas, as Forças Armadas teriam a coragem de atirar nos brasileiros?

Diogo Schelp