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Diogo Schelp


Bolsonarismo se junta à esquerda na banalização do termo 'nazismo'

Alexandre de Moraes determinou ação com base em um inquérito que apura a disseminação de ofensas, ataques e ameaças contra ministros da corte e seus familiares - Divulgação/STF
Alexandre de Moraes determinou ação com base em um inquérito que apura a disseminação de ofensas, ataques e ameaças contra ministros da corte e seus familiares Imagem: Divulgação/STF
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

30/05/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou operação da PF à perseguição nazista aos judeus
  • Roberto Jefferson, alvo da operação e aliado do governo, igualou STF a tribunal nazista
  • O PT e parte da esquerda banalizam o termo "nazista" desde o governo FHC
  • Bolsonaristas usam nazismo como sinônimo de "autoritário" para provar que são vítimas de injustiça
  • Fascismo e nazismo são conceitos que não servem para explicar os fenômenos políticos atuais

Ganhou força, nos últimos dias, a narrativa de que o governo de Jair Bolsonaro e seus apoiadores são vítimas no "nazismo" do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas a comparação com a ideologia do regime de Adolf Hitler na Alemanha dos anos 1930 e 1940 faz algum sentido?

A acusação de que o STF está tendo um comportamento "nazista" brotou em meio à operação realizada pela Polícia Federal (PF) na quarta-feira (27), que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços de empresários, políticos e militantes digitais alinhados ao presidente Jair Bolsonaro. São todos suspeitos de integrar uma rede de produção de notícias falsas dedicadas a atacar e demonizar ministros da suprema corte do país, segundo despacho do ministro Alexandre de Moraes, que conduz o inquérito sobre fake news do STF e que deu a ordem para a operação.

Roberto Jefferson, presidente do PTB e um dos que recebeu a "visita" da polícia em sua casa, escreveu no Twitter: "TRIBUNAL DO REICH. Instituído por Hitler, após o incêndio do Parlamento, aquele tribunal escreveu as páginas mais negras da justiça alemã, perseguindo os adversários do nazismo. Hoje o STF, no Brasil, repete aquela horripilante história. Acordei às 6 horas com a PF em meu lar." Jefferson tem-se destacado como um fervoroso defensor do governo desde que Bolsonaro, nas últimas semanas, passou a assediar o chamado Centrão — um grupo de partidos cujos integrantes são ávidos por cargos federais e do qual o PTB faz parte — para conquistar apoio no Congresso Nacional.

O ministro da Educação Abraham Weintraub — que está na mira do STF por ter defendido, em reunião ministerial do dia 22 de abril, a prisão dos ministros do tribunal — comparou a operação deflagrada por Alexandre de Moraes à perseguição que o nazismo fez aos judeus: "Hoje foi o dia da infâmia, VERGONHA NACIONAL, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL!"

Weintraub recorreu até mesmo à história de sua família para reforçar a analogia. "Cresci escutando como os Weintraub foram caçados e como sobreviveram ao inferno de Hitler. Escutei como a SS Totenkopft entrava nas casas das famílias inimigas do Nazismo. Nesse momento sombrio, digo apenas uma palavra aos irmãos que tiveram seus lares violados: LIBERDADE!", escreveu o ministro no Twitter.

As próprias contradições contidas nos tuítes de Jefferson e Weintraub já bastariam para demonstrar que não passam de falsas analogias. Ora, se o tribunal do III Reich estava sob os desígnios de Hitler, como é possível compará-lo ao STF se o próprio presidente e seu grupo político seriam as vítimas de suas ações?

A comparação feita por Weintraub também é enganosa. Primeiro, pelo exagero, pois colocou no mesmo patamar uma operação policial cumprida dentro da lei e sem violência com um episódio da história alemã que resultou em destruição de propriedade e na morte de centenas de judeus, provocadas por uma milícia armada.

Segundo, porque a Noite dos Cristais, em 1938, foi o ponto de inflexão de uma política de limpeza étnica que levou ao extermínio de 6 milhões de pessoas. Ao compará-la às diligências feitas no âmbito da investigação sobre fake news, Weintraub barateia o sofrimento dos seus próprios antepassados.

Não é à toa que a Confederação Israelita do Brasil (Conib) manifestou, em nota, seu repúdio às afirmações do ministro: "Não há comparação possível entre a Noite dos Cristais, perpetrada pelos nazistas em 1938, e as ações decorrentes de decisão judicial no inquérito do STF, que investiga fake news no Brasil."

Lei de Godwin

O advogado americano Mike Godwin criou, em 1990, uma interessante fórmula para explicar por que, em discussões na internet, argumentos frequentemente acabam dando lugar a acusações de nazismo. Segundo Godwin, quanto mais uma discussão online se estende, maior a chance de a comparação com Hitler ou com o nazismo ser usada para encerrar o assunto. (Godwin foi vítima de seu próprio corolário ao chamar Bolsonaro de nazista em um tuíte, em 2018.)

Apesar do escorregão de seu criador, a formulação de Godwin é correta e válida também fora do ambiente virtual porque fascismo e nazismo não existem mais como fenômenos políticos. Quando usadas fora de seu contexto histórico, são palavras que servem apenas como ofensa política ou para posar de vítima de uma atitude autoritária.

É com esse último intuito que a palavra "nazismo" tem sido usada pelos bolsonaristas. Eles consideram que o STF está se comportando de maneira autoritária ao impor limites ao poder presidencial e ao investigar seus apoiadores.

Estão tão errados como quando a esquerda recorre ao termo. Em entrevista ao UOL em janeiro, por exemplo, o ex-presidente Lula acusou a TV Globo de nazismo ao afirmar, de maneira enganosa, que o canal não havia divulgado notícias sobre as mensagens trocadas por procuradores da Lava Jato com Sergio Moro, quando este era juiz federal do caso.

O PT de Lula e parte da esquerda brasileira vem banalizando o termo "nazismo" há muito tempo. Fernando Henrique Cardoso, quando era presidente, e José Serra, quando era candidato presidencial, por exemplo, estão entre os que foram chamados de nazistas por integrantes do PT ? que, mais recentemente, passou a classificar também o bolsonarismo como movimento fascista ou nazista.

As palavras "fascismo" e "nazismo" entraram no léxico dos xingamentos políticos da esquerda quando os movimentos políticos que elas denominavam ainda ganhavam terreno na Europa. Já em 1935, no VII Congresso Mundial da Internacional Comunista, em Moscou, por exemplo, o fascismo era denunciado como a faceta "terrorista" do capitalismo.

Palavras vazias

O uso indiscriminado dessas palavras tornou-as tão vazias de significado que já há quem diga, em tom jocoso, que o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, alvo de investigação de corrupção comemorada por Bolsonaro e desafeto do presidente, vai criar o "Movimento dos Fascistas contra o Fascismo". É uma piada, claro. Nem Witzel, nem Bolsonaro e muito menos o STF são fascistas.

Pois, como escrevi acima, fascismo e nazismo não existem mais. Explico. O fascismo, fenômeno político do qual o nazismo alemão emergiu como a vertente mais poderosa, foi um movimento circunscrito a um período histórico específico, que não serve para classificar ou mesmo compreender o que acontece no contexto atual.

Existem, claro, grupos neonazistas que pretendem fazer renascer das cinzas as bandeiras do fascismo da primeira metade do século passado, mas não passam de caricaturas que guardam do original mais a aparência (os ritos e os símbolos, por exemplo) do que a essência política.

O fascismo, assim como o nazismo, não foi apenas um movimento autoritário. Essa era apenas uma das suas características. Entre elas estavam, segundo escreveu Karten Krieger na Enzyklopädie des Nationalsozialismus (editora DTV, sem tradução no Brasil), "o anticomunismo militante e o antiliberalismo, assim como a inimizade frente à democracia e o nacionalismo extremo (...) que perseguia objetivos expansionistas (ainda que internamente, contra minorias), conectados com motivações racistas, frequentemente antissemitas".

O nazismo tampouco era de esquerda, como afirmaram no ano passado Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Além de seu caráter anticomunista, conforme dito acima, os nazistas eram defensores incondicionais do direito de propriedade e não estavam interessados nessa história de luta de classes.

Anticomunismo, antiliberalismo, nacionalismo racial, transcendência da luta de classes... Como enquadrar essas características do nazismo na atuação do STF ou, como tentou fazer Lula, na postura da imprensa brasileira?

Como se vê, o conceito de fascismo ou nazismo é muito mais complexo do que querem fazer crer aqueles que recorrem a ele para vestir o manto de vítimas de uma grande injustiça.

"Algo não desejado"

O fascismo foi um fenômeno histórico circunscrito ao período entre 1919, quando foi criado na Itália, e 1945, quando sucumbiu junto com a derrota da Alemanha nazista na II Guerra Mundial.

Como constatou em 1946 o escritor britânico George Orwell, um legítimo antifascista, o termo perdeu a partir de então seu significado, a não ser no sentido de "algo não desejado".

Pelo bem do rigor histórico e em respeito às vítimas reais das atrocidades do fascismo e do nazismo, usar essas palavras em vão também é algo não desejado.

Diogo Schelp