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Diogo Schelp


Pesquisa mostra Bolsonaro com fôlego para terminar mandato

Presidente Jair Bolsonaro participa de cerimônia em Brasília - Adriano Machado
Presidente Jair Bolsonaro participa de cerimônia em Brasília Imagem: Adriano Machado
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

26/06/2020 11h18

A nova pesquisa do Datafolha sobre a popularidade do governo de Jair Bolsonaro mostra um presidente desconectado da maioria da população brasileira, mas com fôlego para concluir o mandato — se nada de mais comprometedor aparecer até lá.

Bolsonaro mantém um terço de aprovação dos entrevistados, mesmo com a pandemia do novo coronavírus se provando muito pior do que ele previra e mesmo depois da prisão do ex-PM Fabrício Queiroz, suspeito de comandar um esquema de confisco de parte dos salários de servidores do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, filho do presidente e atual senador pelo Republicanos (RJ).

A filha de Queiroz, Nathalia Melo Queiroz, foi assessora no gabinete do próprio Jair Bolsonaro em Brasília, quando este era deputado federal. Ela trabalhava como personal trainer no Rio de Janeiro enquanto ocupava o cargo.

Os índices de avaliações ótimas e boas, portanto, demonstram que Bolsonaro está desfrutando do chamado efeito teflon: para essa parcela do eleitorado, a má gestão diante da pandemia do novo coronavírus e os escândalos envolvendo familiares e amigos não colam no presidente.

Ou seja, a não ser que sejam revelados novos fatos que envolvam Bolsonaro diretamente nos rolos dos filhos e de aliados — fatos que sejam capazes de corroer de maneira significativa sua base de apoio —, dificilmente haverá clima político para um processo de impeachment para abreviar seu mandato.

Ao mesmo tempo em que mantém a fidelidade de três em cada dez brasileiros, Bolsonaro se vê cada vez mais distante do que pensa e acredita o restante da população. As avaliações ruim/péssimo do presidente cresceram de 30% em abril do ano passado para 44% nesta última pesquisa. Além disso, 46% dizem nunca confiar no presidente, enquanto só 20% confiam sempre.

Sobre o caso Queiroz, nada menos que 64% dos entrevistados acreditam que Bolsonaro sabia onde ele estava.

Os resultados de pesquisa anterior, divulgada em maio, mostraram que seis em cada dez dos entrevistados acham que Bolsonaro quis usar seu cargo para interferir na Polícia Federal na fatídica reunião ministerial do dia 22 de abril e sete em cada dez discordam da afirmação do presidente de que para evitar uma ditadura é preciso armar a população.

O que tudo isso demonstra é que as visões a respeito de Bolsonaro permitem cada vez menos o meio termo. Enquanto o núcleo de seus apoiadores se mantém firme, "fechado", com o presidente, o cordão dos descontentes cada vez aumenta mais.

Numa cenário desses, Bolsonaro chegará a 2022, porém enfraquecido — e dependerá de uma reedição da polarização com o PT para conseguir se reeleger.

Diogo Schelp