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Diogo Schelp


Donald Trump é um mau exemplo para Jair Bolsonaro

Donald Trump e Jair Bolsonaro                            - JIM WATSON/AFP
Donald Trump e Jair Bolsonaro Imagem: JIM WATSON/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

13/07/2020 15h50

Há pelo menos um bom motivo para argumentar que uma derrota de Donald Trump na eleição presidencial deste ano nos Estados Unidos fará bem ao Brasil. E esse motivo é a má influência que Trump exerce sobre o presidente Jair Bolsonaro.

Isso ficou muito claro na maneira como o brasileiro tem agido nesta pandemia de covid-19, negando evidências científicas, enaltecendo curas baseando-se em achismos e expelindo do governo todos os colaboradores que insistiram em seguir políticas públicas com critérios técnicos. Nada de original. Bolsonaro estava — e está — apenas mimetizando Trump, a quem já chamou de "meu ídolo".

Nos últimos dias, Trump vem dando mau exemplo de novo. Ele e sua equipe de assessores da Casa Branca estão fazendo de tudo para desacreditar Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, um órgão do governo americano, desde 1984 e responsável por aconselhar o presidente nas políticas para combater a pandemia do novo coronavírus.

Na semana passada, Trump concedeu uma entrevista a um canal de notícias dizendo que Fauci "cometeu muitos erros". Os dois não se falam há semanas. Nos últimos dois dias, assessores da Casa Branca se esforçaram para plantar na imprensa uma lista de previsões supostamente equivocadas que Fauci teria feito desde o início da pandemia.

O motivo da fritura de Fauci é o fato de que o especialista tem alertado para o perigo de reabrir o país enquanto o número de novas infecções por covid-19 não estiver sob controle, além de ter corrigido publicamente afirmações feitas por Trump sobre a gravidade da doença.

Trump, como Bolsonaro, tenta passar por cima do elevado número de mortos por covid-19 (135.000 nos Estados Unidos, 72.000 no Brasil) insistindo na ideia de que a doença só é perigosa mesmo para idosos e pessoas com saúde frágil. Um cientista com status de autoridade que diz o contrário torna-se, nesse contexto, um incômodo.

Bolsonaro, cuja postura diante da pandemia tem levado ao isolamento externo do Brasil, sente-se amparado nas ações de Trump, que governa o país mais poderoso do mundo. Talvez não por muito tempo, como indicam as pesquisas de intenção de voto nos Estados Unidos.

Se Trump perder a reeleição, o isolamento brasileiro será completo. E Bolsonaro não poderá mais buscar no exterior a legitimação para muitas de suas ações negacionistas.

Diogo Schelp