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Por que Bolsonaro e Trump não conseguem liderar na pandemia

O presidente Jair Bolsonaro discursa para apoiadores neste domingo - Reprodução
O presidente Jair Bolsonaro discursa para apoiadores neste domingo Imagem: Reprodução
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

20/07/2020 17h27

Em meados de abril, o presidente americano Donald Trump convenceu-se de que já havia dado toda a ajuda de que os estados necessitavam para enfrentar a pandemia do novo coronavírus e que era hora de "abrir", ou seja, aliviar as medidas de distanciamento social. Mas o pior estava por vir e o país ainda nem havia ultrapassado a marca dos 100.000 mortos (já está em mais de 140.000).

A partir daquele momento, Trump e sua equipe da Casa Branca passaram a se concentrar em culpar os governadores pela crise na saúde pública e por seus efeitos econômicos. O presidente desistiu de liderar seu país em um dos momentos mais trágicos de sua história recente, que já matou 46 vezes mais do que os atentados de 11 de setembro de 2001 e mais do que o dobro dos soldados americanos caídos na Guerra do Vietnã.

Uma busca em inglês com as expressões "falta de liderança" e "Trump" resulta em 2,1 milhões de entradas no Google.

Também em abril, no Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) assegurou aos entes subfederativos (estados e municípios) autonomia para adotar medidas preventivas para conter a contaminação da população pelo novo coronavírus, depois que o governo federal tentou, por decreto, restringir o poder dos estados para fechar o comércio e limitar a circulação de pessoas, entre outras políticas de distanciamento social.

O STF, no entanto, foi claro ao dizer que isso não impedia o governo federal de também elaborar políticas para combater e frear o avanço da covid-19. O presidente Jair Bolsonaro, porém, lavou as mãos e usou a decisão para se eximir de responsabilidades. Quando anunciou que havia testado positivo para a doença, no dia 7 de julho, distorceu o sentido da decisão do STF e disse com todas as letras que cabia a governadores e prefeitos as medidas preventivas e que ao governo federal restaria apenas fazer o repasse de dinheiro.

Bolsonaro, assim como Trump, portanto, abdicou de assumir o papel de liderança na resposta nacional à pandemia e preferiu jogar nas costas dos governadores e dos prefeitos toda a culpa tanto pela eventual incapacidade de evitar as mortes por covid-19 quanto pela crise econômica (que, ao contrário do que diz o presidente, se deve mais à pandemia em si do que pelas tentativas de contê-la).

A falta de liderança de Bolsonaro e de Trump não é apenas sinal de que um exerce má influência sobre o outro, como eu já escrevi aqui. Trata-se de um desdobramento natural de uma atitude política que se sustenta eleitoralmente no divisionismo e na polarização.

Em tempos difíceis, a liderança de um presidente é colocada à prova por meio de duas características essenciais: o nível de confiança e a percepção de competência.

Para mobilizar um povo e apontar o caminho a seguir, um presidente precisa primeiro desfrutar da confiança dos liderados. Se ele chegou ao cargo ou o exerce espalhando mentiras, como ocorreu com Trump e Bolsonaro, jamais terá a confiança de mais do que a parcela leal e radicalizada de seus apoiadores.

Um presidente tampouco consegue liderar se não transmite a imagem de alguém capaz de fazer o que precisa ser feito. Mesmo governantes íntegros e confiáveis sucumbem em momentos de dificuldade se não forem vistos como competentes para o desafio que se coloca diante deles.

O comportamento errático, o desprezo pelo conhecimento científico e a insistência em soluções milagrosas escancararam, para a maioria dos brasileiros e dos americanos, que as competências de Trump e Bolsonaro não estão à altura do problema que seus países enfrentam.

Trump e Bolsonaro não desfrutam da confiança e da capacidade necessárias para liderar na pandemia. Restou-lhes encontrar alguém para atribuir toda a culpa pelo que deu e está dando errado. Ambos vão manter essa estratégia até o fim de seus mandatos.

Quem governa dividindo não foi talhado para liderar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL