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Diogo Schelp


Diogo Schelp

Explosão em Beirute desperta fantasmas de conflitos que a pandemia ocultou

Helicóptero apaga o incêndio no local de uma explosão no porto da capital libanesa, Beirute - 4 de agosto de 2020 - STR / AFP
Helicóptero apaga o incêndio no local de uma explosão no porto da capital libanesa, Beirute - 4 de agosto de 2020 Imagem: STR / AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

04/08/2020 16h18

A tragédia ainda não terminou, mas todos já questionam sua causa.

Os mortos e feridos na gigantesca explosão ocorrida na área de armazéns do porto de Beirute, no Líbano, ainda estavam sendo retirados dos escombros e helicópteros tentavam apagar o fogo quando o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gabi Ashkenazi, foi à TV para afirmar que seu país não teve nada a ver com o episódio.

Segundo Ashkenazi, o mais provável é que a explosão — cujo barulho foi escutado até no Chipre, uma ilha a mais de 200 quilômetros dali — tenha sido causada por um incêndio. De fato, essa é a hipótese inicial aventada também por outras fontes, pois aparentemente o armazém afetado continha explosivos. As imagens mostram que havia uma densa fumaça branca no local antes de uma coluna de fumaça vermelha se expandir para o alto, com um estrondo.

Israelenses não foram os únicos a correr a dar explicações.

Um site de notícias ligado ao Hezbollah, um misto de movimento político, milícia paramilitar, organização de narcotráfico e grupo terrorista que representa parte dos muçulmanos xiitas do Líbano, também tratou de apontar causas acidentais. Segundo o braço de comunicação do Hezbollah, a causa foi um incêndio em um armazém que estocava fogos de artifício ou benzina.

"Ridículo", disse Abbas Ibrahim, chefe da agência de inteligência e segurança do Líbano, sobre a hipótese de que a explosão poderia ter sido causada por fogos de artifício ou outros artefatos pouco sofisticados. Segundo ele, no local estavam estocados materiais altamente explosivos (possivelmente nitrato de amônia) que haviam sido apreendidos pelas autoridades. Há relatos de que teriam ocorrido duas explosões, não apenas uma.

Quando há uma explosão no Oriente Médio, primeiro as pessoas pensam em terrorismo ou bombardeio. Só depois em acidente.

Atribui-se ao Hezbollah uma lista de atentados, o mais conhecido deles com uma bomba de 3.000 quilos que há 15 anos matou o ex-primeiro-ministro Rafic Hariri e outras 21 pessoas e deixou uma cratera em uma rua da capital libanesa. O grupo xiita nunca admitiu envolvimento no atentado, mas os réus que estão sendo julgados à revelia em um tribunal penal internacional em Haia, na Holanda, são todos ligados ao movimento. A sentença do julgamento estava marcada para sair esta semana.

Israel, por sua vez, está em permanente pé de guerra com o Líbano, tendo bombardeado boa parte da infraestrutura do país em 2006, em retaliação a ataques do Hezbollah ao seu território. As tensões entre israelenses e o grupo libanês continuam. Na semana passada, o governo israelense acusou seus integrantes de terem violado sua fronteira.

Mas uma explosão no Oriente Médio, enquanto não se sabe se foi um acidente, nunca permite olhar para apenas um ou dois suspeitos. O que dizer, por exemplo, do Estado Islâmico, exército terrorista instalado na Síria, país em guerra civil desde 2011 e vizinho do Líbano? O grupo foi declarado derrotado no ano passado, mas ainda possui combatentes infiltrados em diversos países da região. Há relatos de que integrantes do Estado Islâmico presos no Líbano têm promovido a radicalização de outros detentos nos presídios.

O Oriente Médio está há décadas no noticiário internacional por causa de seus intrincados conflitos. A pandemia do novo coronavírus não acabou com eles, é claro, apenas tornou-os menos visíveis para o resto do mundo — agravando, ao mesmo tempo, seu impacto humano.

Os milhões de refugiados da guerra da Síria, por exemplo, muitos amontoados em campos na Turquia, na Jordânia e no próprio Líbano, estão mais vulneráveis à doença e à alta no preço de alimentos.

Recentemente, Rosemary DiCarlo, sub-secretária-geral da ONU para Assuntos Políticos, que vem fazendo um esforço para obter acordos de cessar-fogo em conflitos ao redor do mundo, alertou que, com os governos concentrados nas questões da pandemia, grupos terroristas encontrarão oportunidade para usá-la como distração para novos ataques.

Pode não ser o caso da destruição que abalou Beirute. Mas a explosão nos faz voltar os olhos para o Oriente Médio e lembrar que seus conflitos continuam bem vivos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Diogo Schelp