PUBLICIDADE
Topo

Diogo Schelp

Como as pesquisas podem errar resultado da eleição americana este ano

                                 Biden (E) lidera principais pesquisas, mas Donald Trump aposta em virada                              -                                 JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP
Biden (E) lidera principais pesquisas, mas Donald Trump aposta em virada Imagem: JIM WATSON, SAUL LOEB / AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

02/11/2020 14h23

Em outubro de 2016, o recepcionista de um hotel em Baltimore, estado de Maryland, nos Estados Unidos, inclinou-se sobre o balcão para me fazer uma grande revelação, em tom de segredo, quando lhe contei que estava ali para cobrir a campanha presidencial: "Não acredite nas pesquisas, Trump vai ser eleito." De fato, semanas depois, o republicano Donald Trump derrotou a democrata Hillary Clinton e a credibilidade dos institutos de pesquisas eleitorais, que passaram a a ser motivo de críticas duras — e de chacotas.

Eis a razão pela qual os apoiadores de Trump estão seguros de que ele vai ser reeleito este ano, apesar de aparecer atrás do adversário Joe Biden em praticamente todas as pesquisas de intenção de voto. Mas afinal, as pesquisas podem errar o resultado da eleição novamente?

Para entender se e como isso pode acontecer, é preciso primeiro levar em conta uma particularidade do sistema eleitoral americano que deixa tudo muito mais complicado do que, por exemplo, no Brasil.

Nos Estados Unidos, não é o número absoluto de votos que define o próximo presidente, mas sim quem conseguiu a maioria dos delegados no Colégio Eleitoral. Esses são definidos nas votações em cada estado. Por exemplo, o candidato que tiver a melhor votação na Flórida, não importando se com larga ou estreita margem de vantagem em relação ao segundo colocado, leva todos os 29 delegados a que o estado tem direito. Em apenas dois estados, a distribuição dos delegados é proporcional. O Colégio Eleitoral tem 538 delegados; são necessários 270, no mínimo, para um candidato ser declarado vencedor.

Esse sistema possibilita que um candidato vença na contagem geral de votos dos eleitores, mas perca no Colégio Eleitoral. Tudo depende de ter vencido, não importa por qual margem, nos estados que designam um grande número de delegados.

Foi o que aconteceu na eleição de 2016: Hillary Clinton teve 2,8 milhões de votos a mais do Trump, mas perdeu no colégio eleitoral por uma diferença de 77 delegados.

As pesquisas eleitorais em 2016, portanto, não erraram ao captar a preferência dos eleitores em Hillary Clinton na votação geral. O resultado ficou dentro da margem de erro prevista na modelagem estatística das pesquisas.

Os problemas ocorreram nas pesquisas em nível estadual, que é o que realmente importa no sistema eleitoral americano. Ou seja, os institutos falharam em identificar qual candidato liderava em cada estado. Enquanto as pesquisas que foram feitas em nível nacional permaneceram, em 2016, dentro de uma margem de erro de 3,2 pontos percentuais, aquelas que buscavam quantificar a intenção de voto em cada estado cometeram um erro médio de 5,3 pontos percentuais.

Essa diferença de precisão tornou-se um problema, pois, como vimos, é o resultado da votação em cada estado que define qual candidato terá o maior número de delegados no Colégio Eleitoral.

A possibilidade de as pesquisas fracassarem mais uma vez em identificar a vantagem de Trump em estados decisivos não deve ser descartada, mas os veículos de comunicação estão investindo em pesquisas de melhor qualidade nos estados este ano.

Além disso, os institutos fizeram ajustes para evitar alguns erros cometidos em 2016. Os critérios para a escolha da amostra dos entrevistados, por exemplo, foram alterados para que eleitores de áreas rurais e de menor nível de escolaridade não fiquem sub-representados, como ocorreu em 2016.

Mas a maior dificuldade das pesquisas eleitorais nos Estados Unidos, e que deve se agravar este ano, é calibrar as respostas obtidas nas entrevistas com a abstenção no dia das eleições.

Como o voto é facultativo, muitos eleitores podem dizer ao entrevistador que pretendem sair de casa para votar, mas no dia não comparecer. Com a pandemia no novo coronavírus, fatores como a alta no número de contaminados em determinado estado às vésperas da eleição ou filas nos locais da votação podem elevar os índices de abstenção.

Também é preciso ficar atento para o movimento das pesquisas nos últimos dias. A vantagem de que Biden usufruía vem diminuindo nos chamados estados pêndulo — aqueles que, a cada eleição, oscilam entre dar a vitória ao candidato de um partido ou de outro. Em 2020, os estados decisivos para uma vitória no colégio eleitoral são Wisconsin, Michigan, Pensilvânia, Carolina do Norte, Flórida e Arizona.

Na média de pesquisas compilada pelo site RealClearPolitics, Biden chegou a ter 5 pontos de vantagem sobre Trump nesses seis estados. Nesta segunda-feira (2), porém, a diferença havia caído para 2,9 pontos percentuais. Em um deles, a Carolina do Norte, Trump aparece à frente com pequena vantagem de 0,9 ponto percentual.

Que rufem as pranchetas dos pesquisadores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL